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  Título
A resistência do corpo: artifício e alegoria em Medo do Escuro e Imo
Autor
Camila Vieira da Silva
Resumo Expandido
Na contramão de uma certa tendência cinematográfica de ancoragem no realismo, alguns filmes brasileiros contemporâneos procuram apostar no artifício como estratégia de invenção de outros mundos possíveis no cinema. É uma vontade presente nos longas-metragens Medo do Escuro (2015), de Ivo Lopes Araújo, e Imo (2018), de Bruna Schelb Corrêa, que convocam experimentações estéticas a partir da construção de imagens alegóricas, na tentativa de estremecer as relações contíguas com um real previamente conhecido e instaurar outro real por meio do cinema em diferentes modos de articulação da cena, que convocam a performance e o fragmento.



Inventar outras articulações no cinema é também criar múltiplos sentidos provisórios. Medo do Escuro e Imo fazem uso da alegoria como contraponto ao simbólico. Enquanto as metáforas e os símbolos apontam para unívocas interpretações de mundo, a alegoria possibilita uma proliferação de sentidos, que sempre mudam a cada olhar e criam momentos de interrupção no solo da significação. Para Walter Benjamin (1984), “onde o símbolo nos leva, a alegoria nos tira”. A alegoria é uma resistência ao símbolo. Nada na alegoria é definitivo. Se pensarmos a força da alegoria nas imagens de Medo do Escuro e Imo, parece ser preciso sempre retornar aos filmes e, a cada nova exibição, pensar outras interpretações.



De acordo com o pensamento benjaminiano, “na esfera da intenção alegórica, a imagem é fragmento, ruína” (BENJAMIN, 1984, p. 198). As ruínas em Medo do Escuro não são apenas a constituição aparente da paisagem. Elas são imagens do provisório e do fragmento que a alegoria evoca e, de algum modo, roçam a fragilidade e o desamparo de uma cidade como Fortaleza, povoada por edifícios e ruas abandonadas. Lugares de memória, destruídos ou largados à própria sorte, pairam em meio à dinâmica predatória de ocupação dos espaços da cidade, que privilegia a construção de grandes empreendimentos e ordena remoções. Como ainda é possível habitar esta cidade? Como criar bolsões de resistência neste cenário apocalíptico? Contentar-se com o pouco, com o frágil, construindo diferenças com os resquícios que ficam, pode ser uma estratégia. O gesto é o mesmo do protagonista que constantemente arrisca voltar às ruas para coletar os restos deixados pelos outros.



Em Imo, a resistência não se situa em relação à ocupação predatória de um espaço urbano, mas a um modo de vivência dentro do ambiente doméstico que oprime mulheres. É também um filme de fragmentos, de episódios cênicos em que corpos femininos interagem com objetos da casa em alteração aos seus usos comuns do cotidiano. A banalidade das situações corriqueiras é substituída por estranhamentos de ordem cênica, em que a performance tem seu lugar prioritário nas ações: ser invadida por vários braços em uma mesa, arrancar os olhos e enterrar no jardim, ter o corpo nu servido em um banquete organizado por homens.



Se o sangue é o elemento da violência presente nos corpos das mulheres em Imo, os lampejos intermitentes de Medo do Escuro - espelhos reluzentes, reflexos do sol e o brilho nos corpos dos personagens – parecem vislumbres de um possível que permitem aos corpos continuar, a dar mais um passo, a não ceder diante das ameaças. Nos momentos mais críticos, há sempre a queda, mas algo impulsiona os personagens a recomeçar. Em uma morada hostil, talvez não haja força suficiente para combater os poderes. Quem sabe tais instâncias de soberania sejam apenas imagens a impor o medo, a tentar nos imobilizar e arrefecer nossos ânimos? O impulso de resistência pode estar guardado no corpo: ele extravasa em um movimento de dança em Medo do Escuro e guarda o sangue que envenena os agressores em Imo. O que esses filmes podem convocar em meio a uma nova barbárie?
Bibliografia

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