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  Título
Drama e Representação em Edifício Master
Autor
Wendell Marcel Alves da Costa
Resumo Expandido
O objetivo deste trabalho é produzir uma análise antropológica do discurso fílmico construído em Edifício Master (Eduardo Coutinho, 2002). Neste documentário, moradores de um edifício residencial de classe média no Rio de Janeiro são entrevistados acerca de suas histórias de vida. Como contexto espacial, tem-se o edifício como um organismo social, um lugar de vivências, memórias e situações marcantes. Trabalham-se aqui as narrativas das histórias de vida dos moradores do Edifício Master e como essas narrativas são construídas a partir de dramas e representações sociais. Indica-se um olhar antropológico fílmico sobre as etnografias dos espaços privados, das emoções e das histórias de vida.



O documentário tem como pano de fundo um edifício residencial de classe média em Copacabana - Rio de Janeiro. Coutinho adentra o lugar e realiza uma série de entrevistas com os moradores. Histórias de vida são contadas pelos entrevistados: canções são declamadas, lágrimas caem, sorrisos aparecem aos poucos, medos são revelados, angústias expostas para a lente da câmera. O espectador é o ouvinte. Coutinho é o entrevistador. Os moradores são os atores sociais. Três dimensões de recepção. As histórias dos moradores do edifício são narradas como dramas da vida real, e com pinceladas de atos de uma peça encenada. Este “objeto de exposição” é um elemento do trabalho de campo como espaço para a construção de dramas e representações sociais.



Oportuniza-se discutir por meio do documentário como as histórias são narradas a partir de uma ilusão biográfica (BOURDIEU, 1998), e estas narrativas, construídas sobre o resgate de memórias, organizam um enredo sobre o imaginário da vida privada. O olhar antropológico fílmico sobre as etnografias dos espaços privados, das emoções e das histórias de vida sobre uma classe média brasileira que reflete um sentido de grupo, de corpo, de pragmatismo acerca da relação público x privado (VELHO, 1981; HOLANDA, 1995). Como drama, analisam-se as corporalidades, as narrativas, as situações-chaves de transição entre o real e o representado, entre a ilusão e o imponderável sentido da vida cotidiana. Como representação, discutem-se as nuances de construção de narrativas, das interfaces do simbólico e da metalinguagem.



Em resumo, espera-se delimitar o intervalo entre o drama e a representação de indivíduos resguardados em seus ambientes privados (COSTA e COSTA, 2017), que partilham suas memórias e afetos com um “sujeito interessado” – o cineasta. A câmera produz corporalidades fílmicas, sendo estas já reminiscências da representação e do drama que permanecem nas formas de narrar, recontar, rememorar histórias de vida.
Bibliografia

BOURDIEU, P. “A ilusão biográfica”. In: Ferreira, M. de M. & Amado, J. (org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1998.



COSTA, M. H. B. V. COSTA, W. M. A. O outro e a arquitetura da cidade: as relações de poder em Um Lugar ao Sol. DOC On-Line, n. 21, março de 2017, pp. 97-113.



HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.



VELHO, G. Individualismo e cultura: notas para uma Antropologia da Sociedade Contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.