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  Título
A construção do espaço comum em Kelly Reichardt e Henry David Thoreau
Autor
Cesar de Siqueira Castanha
Resumo Expandido
“Para onde conduzem todas essas rodovias?”, pergunta um personagem ao contemplar o conjunto de estradas no estado da Flórida, em River of Grass (1994), primeiro longa-metragem dirigido por Kelly Reichardt. Em seus outros filmes, a questão permanece. Qual é o destino desses espaços, como apresentados pelo cinema de Reichardt, na comunidade estadunidense? O que se revela, neles, de um percurso histórico e de uma dialética social entre o comum e o privado?



Talvez eu possa dizer que, no cinema de Reichardt, não encontramos uma resposta, mas a inquieta insistência da pergunta, repetidamente formulada — na viagem para acampar de dois amigos distanciados, na busca de uma viajante por sua cachorra de estimação em uma cidade pequena, na procura por água de um grupo de colonos, nos planos de ação de ativistas ambientais ou na estrada, simplesmente, que leva ao encontro, ou dele de volta para casa. Nessa variedade da experiência comum, o espaço está continuadamente presente, para ser considerado.



Nesta apresentação, interesso-me pela construção do espaço estadunidense como a promessa, ou a expectativa, de um espaço comum. Proponho, assim, uma comparação entre o cinema de Reichardt — em especial, os filmes Wendy and Lucy (2008) e Movimentos noturnos (2013) — e a obra literária de Henry David Thoreau, dedicada a uma consideração afetiva e política desse mesmo espaço. Interessa-me pensar a continuidade do Oeste no cinema de Reichardt como a manutenção de uma problemática, já presente em Thoreau, da formação do espaço comum no país.



Em A week on the Concord & Merrimack rivers, Thoreau (2004) vincula observações do caminho que percorreu, na companhia de seu filho, pelos rios Concord e Merrimack a considerações sobre a formação de uma comunidade ocidental nos Estados Unidos. A sua crítica é sempre dirigida aos modos de habitação do espaço comum — seja relativo ao trabalho, à acumulação de capital, à moradia ou à religiosidade. Desse modo, o autor percebe sempre sua própria posição de viajante, e também sua desvinculação ao Estado e às instituições religiosas, como uma privilegiada perspectiva do e pertencimento ao espaço.



No livro Nature and culture: American landscape and painting, Barbara Novak (2007, p. 12-14) reconhece, na pintura do século XIX, a representação da paisagem como parte da promessa do destino americano de “uma nação, unida sob Deus e a natureza (ou sob Deus como natureza)” e “lembrança da nação de sua benevolência divina e de seu destino escolhido”. Já no artigo “Toward a genealogy of American landscape”, Jean Mottet (2006, p. 62) opõe a noção de “belo” para o europeu da virada do século XIX para o XX com a ideia de “habitável” para o estadunidense da mesma época, indicando uma atitude particular na relação que se estabelece com o espaço. Para o autor, “o que caracteriza essa atitude é a maneira como ela atende o cotidiano, o lugar comum, o próximo — principalmente em torno da propriedade” (MOTTET, 2006, p. 62). Mottet (2006, p. 62) lista Thoreau, Thomas Cole e Walt Whitman como artistas americanos que colocaram a propriedade no centro espacial e simbólico da paisagem. O que o cinema faz pela continuidade dessa tradição é possibilitar a emergência de novos modos de interpretar o espaço, pensar sobre ele e fazê-lo visível (MOTTET, 2006, p. 62).



A centralidade política e ideológica do espaço estadunidense (e de sua representação) é reconhecida também em autores como Rebecca Solnit, em Storming the gates of paradise (2007); Leo Marx, em The machine in the garden (2000); e Neil Campbell, em The rhizomatic west (2011). Busco, a partir de Reichardt e Thoreau, pensar a ambivalência da representação da paisagem estadunidense entre natureza (como espaço natural ou espaço comum) e propriedade (como espaço nacional, doméstico, íntimo). Acredito que o espaço estadunidense continua a ser apresentado a partir dessa ambivalência e, nesses autores, de um reconhecimento das contradições que surgem a partir dela.
Bibliografia

CAMPBELL, Neil. The rhizomatic west: representing the American west in a transnational,

global, media age. Nebraska: University of Nebraska Press, 2008. 383 p.



MARX, Leo. The machine and the garden. Nova York: Oxford University Press, 2000. 414

p.



MOTTET, Jean. Toward a genealogy of American landscape: notes on landscapes in D.W. Griffith (1908-1912). In: LEFEBVRE, Martin. Landscape and film. Nova York: Routledge, 2006. p. 61-90.



NOVAK, Barbara. Nature and culture: American landscape and painting, 1825-1875. 3. ed. Nova York: Oxford University Press, 2007. 296 p.



SOLNIT, Rebecca. Storming the gates of paradise: landscapes for politics. Berkeley: University of California Press, 2007. 416 p.



THOREAU, Henry David. A week on the Concord and Merrimack rivers (E-book). Overland Park: Digireads, 2004.



________. Civil disobedience (E-book). Nova York: Dover, 2012.



________. Life without principle (E-book). Publicação independente, 2013.