Voltar para a lista
 
  Título
Da invisibilidade à materialidade: videoinstalações e data centers
Autor
Ruy Cézar Campos Figueiredo
Resumo Expandido
Reconfiguraram-se, nas últimas décadas, as relações entre sociedade, circulação e consumo de mídias, conforme uma ecologia de intensidade dada a partir do digital passou a afetar distintamente tanto a geopolítica das telecomunicações quanto as relações entre corpo e materialidade, abrindo espaço para novos imaginários em torno das infraestruturas midiáticas. Nos últimos anos, arte e academia tem dedicado crescente atenção não só para a intensidade de dados que circulam nas redes digitais, mas também para a logística e infraestrutura que sustenta a distribuição e circulação desses dados, seus sentidos políticos e ecológicos.



Parks & Starosielski (2016), por exemplo, vão lançar desde uma perspectiva de acadêmicas que trabalham com metodologias relacionadas às artes, uma compreensão sobre as infraestruturas das mídias a partir de uma abordagem relacional que as pensa para além de suas máquinas estáticas e instalações físicas em si, definindo-as como formações e organizações sóciotécnicas relacionadas ao labor, manutenção e reparo necessário para sua existência, considerando tanto os recursos naturais que requisitam e os impactos ambientais que produzem quanto as formas às quais as pessoas percebem e se afetam por elas. (PARKS & STAROSIELSKI, 2016, P.7)



Esse pensamento está diretamente relacionado com trabalhos de arte que tem surgido com o tema, como as videoinstalações de Emma Charles, John Gerrard e Timo Arnall.



Internet Machine, de Timo Arnall, se utiliza do recurso de imagens produzidas com um teor documental e trabalhadas posteriormente em 3D para criar um ambiente imersivo que apresenta um data center considerado como um dos maiores, mais seguros e melhor preparado para falhas do mundo, de propriedade da Telefonica em Alcalá, Espanha. O filme propõe um contato corporal com a sensorialidade e espacialidade dessa infraestrutura midiática. Envolvido por imagens de cabos, buracos em paredes, turbinas, corredores de armazéns de dados em ambientes bem iluminados, gelados e controlados remotamente, o espectador tem a possibilidade de adentrar esse espaço e se relacionar com imagens de um prédio geralmente bastante restritivo ao acesso de estranhos, em uma arquitetura, conceitual e física, projetada para a invisibilidade.



White Mountain, de Emma Charles, apresenta um data center instalado em um bunker da Guerra Fria na Suécia, projetado para aguentar uma bomba de hidrogênio. Através de imagens de corredores de armários de dados e do entorno da infraestrutura, lidamos com esse ambiente instalado por meio de rochas que no passado testemunharam os segredos do conflito de quase meio século e na contemporaneidade vêem máquinas manter segredos de clientes como Wikileaks.



Farm, de John Gerrard, por vez, é um trabalho elaborado em 3D após sucessivas tentativas falhadas do artista de lograr autorização do Google para gravar um de seus data farms. O artista optou por alugar um avião e com as imagens aéreas criou uma simulação digital dessa arquitetura que tentou não ser vista. O processo de produção do trabalho, assim como a escolha forçada de se utilizar uma simulação, revela uma política de invisibilidade que esteve encrustada por décadas na operacionalidade das infraestruturas, no que Lisa Parks aponta ser uma política de afetos deliberadamente mobilizados em torno da apatia, desinteresse e desinformação.



Por qual motivo esses afetos são colocados como invisíveis? Como essas instalações audiovisuais mobilizam outros afetos? Como podem colaborar para se definir e abordar os data centers desde uma perspectiva crítica da arte e mídia? Quais aspectos dos processos de criação podem ser destacados para revelar como procedimentos cinematográficos na arte contemporânea podem colaborar a se ter uma noção maior das materialidades das mídias?



Esses questionamentos pautam o desenvolvimento da apresentação, colaborando com o seminário ao pensar como relações entre arte e cinema afetam nossos imaginários midiáticos e infraestruturais.
Bibliografia

PARIKKA, Jussi. A geology of media. Electronic Mediations, vol. 46. University of Minnesota Press. 2015



PARKS, Lisa. Stuff You Can Kick: Toward a Theory of Media Infrastructure. In Between Humanities and the Digital, edited by Patrik Svennson and David Theo Goldberg, 355-840 Cambridge, MA: MIT Press, 2015.



PARKS, Lisa. STAROSIELSKI, Nicole. (ed). Signal Traffic: Critical Studies of Media Infrastructures. University of Illinois Press. 2016.



ROSSITTER, Ned. Imperial Infrastructures and Asia Beyond Asia: Data Centres, State Formation and the Territoriality of Logistical Media. in: The Fibreculture Journal. Issue 29: Computing the city. 2017.



STAROSIELSKI, Nicole. The Undersea Network. Duke University Press. 2015.