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  Título
Intensidade da imagem: procedimentos fotográficos em Central do Brasil
Autor
Cyntia Gomes Calhado
Resumo Expandido
O filme Central do Brasil (Walter Salles, 1998) apresenta a história de Dora, professora aposentada, cujo trabalho é escrever cartas para analfabetos na estação de trem do Rio de Janeiro que dá título ao longa. Ela decide acompanhar o garoto Josué em uma viagem para Bom Jesus do Norte, Pernambuco, em busca do pai, depois que a mãe do menino morre atropelada nos arredores da estação.



Caracterizada como uma personagem cínica, Dora aos poucos vai revelando sua bondade como consequência da aproximação de Josué. Este arco dramático de ressensibilização tem como ápice o transe religioso da personagem em meio a fogos de artifício, velas e ladainhas de uma romaria. A cena culmina no desmaio de Dora na Casa dos Milagres, espécie de templo em que religiosos acendem velas e deixam imagens de familiares aos santos. Tecnicamente marcada pelo virtuosismo de sua fotografia, realizada por Walter Carvalho, a cena da romaria é conhecida pelo fato de grande parte da fonte de iluminação ser proveniente de velas.



Esta comunicação visa demonstrar que o acionamento de determinados procedimentos fotográficos em uma obra audiovisual contribui para a criação de uma experiência estética intensa. A análise busca evidenciar como a concepção fotográfica desta cena instaura acontecimentos plásticos, capazes de ampliar a experiência sensória.



A grande plasticidade da luz neste trecho do filme, fruto de procedimentos fotográficos diversos, passa a constituir o interesse principal da experiência estética da cena. Nesse instante, o efeito de transparência da imagem é reduzido drasticamente em detrimento de uma percepção da imagem como produção do visível, como um efeito de mediação. Portanto, podemos observar nesse trecho uma ocorrência da narrativa como acontecimento, já que ele não comunica um evento, mas restitui o efeito vivo da luz e, por decorrência, da experiência cinematográfica, presentificando essa experiência para o espectador.



A proposta de análise que desenvolveremos segue a abordagem das extremidades (Christine Mello, 2008) e as plasticidades da imagem (Philippe Dubois, 2012). Dialogaremos também com a leitura que André Parente (2013) faz dos processos narrativos-imagéticos e com a perspectiva da experiência estética de John Dewey (2010).
Bibliografia

BENTES, Ivana; MATTOS, Carlos Alberto; AVELLAR, José Carlos. “Conversa com Walter Salles - O documental como socorro nobre da ficção”. Cinemais, Rio de Janeiro, n. 9, jan./fev. 1998.



DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.



DUBOIS, Philippe. Plasticidade e cinema: a questão do figural. In: HUCHET, Stéphane. (Org.). Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo: Edusp, 2012.



MELLO, Christine. Extremidades do vídeo. São Paulo: Senac, 2008a.



NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. São Paulo: CosacNaify, 2006.



PARENTE, André. Narrativa e modernidade: os cinemas narrativos do pós-guerra. Tradução Eloisa Araújo Ribeiro. Campinas: Papirus, 2000.



_________. As virtualidades da narrativa cinematográfica. In:_______ (Org.). Cinema/Deleuze. Campinas: Papirus, 2013, p. 249-270.



XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.