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  Título
A Resposta das Trevas: regime afetivo em História(s) do Cinema
Autor
PABLO GONZALEZ RAMALHO
Resumo Expandido
A complexidade da montagem de “História(s) do Cinema”, de Jean-Luc Godard, pode ser ilustrada pela mistura de elementos de natureza diferente (filmes, fotos, pinturas, de ficção e documentais, títulos de filmes, de livros, de artigos, músicas do erudito ao pop), e pelo uso incessante das acelerações/desacelerações, sobreposições, flicker, efeitos gráficos, o que a situaria diretamente no âmbito da reflexão acerca da imagem, de Bergson a Deleuze, e para além dela, no campo das discussões sobre o papel do corpo e da heterogeneidade e natureza do tempo. Além disso, o cinema revela-se uma testemunha privilegiada da História, não somente por ser capaz de reproduzir aspectos da realidade, mas por poder manifestar a necessidade de suas lutas. Paradoxalmente, a montagem de “História(s) do Cinema” mostra a história de um massacre.

Dois são os motivos pelos quais a arte da montagem cinematográfica teria sido massacrada, segundo “História(s) do Cinema”. Primeiramente, a maneira como se deu a passagem entre o cinema mudo e o sonoro. Em segundo lugar, a incapacidade, muito tributária do primeiro motivo, em mostrar, ou seja, montar, os campos de concentração nazistas. A história do cinema carrega esta dor e ela se manifesta em “História(s) do Cinema”. Minha hipótese é de que se pode, com a ajuda de uma certa filosofia moderna e contemporânea, analisar a natureza e a função desta dor e desta manifestação, o que se torna urgente em tempos de virada fascista.

A análise de História(s) do Cinema em diálogo com a obra de Deleuze correria o risco de se fechar em uma tautologia, pois Deleuze utiliza muito o pensamento do próprio Godard para construir sua filosofia de Cinema. Trata-se de uma classificação das imagens cinematográficas composta por dois regimes principais: o das Imagens-Movimento e o das Imagens-Tempo. A obra de Godard está situada no regime de Imagens-Tempo. Porém, relacionar História(s) do Cinema ao regime das Imagens-Afecção, que formam um subconjunto das Imagens-Movimento, tem uma dupla função. Em primeiro lugar revela o dinamismo interno da classificação deleuzeana, que está em conformidade com a problematização do pensamento clássico realizada por Charles Sanders Peirce e Henri Bergson, dos quais Deleuze também se serve. Em segundo lugar, penetrando mais profundamente essa obra de classificação e Filosofia a partir do Cinema, podemos observar que seus dois regimes principais se entrecruzam. Há um intervalo de tempo que define as Imagens-Tempo e a inserção da obra de Godard neste regime. Porém este intervalo também está presente no regime das Imagens-Movimento, onde ele é necessariamente habitado pelas Imagens-Afecção. Estas, compostas a partir da definição bergsoniana de afecção, respondem à montagem de História(s) do Cinema enquanto manifesto, pois remetem a uma potência de resistência a interferências fortes demais, que se manifestam nas vibrações da dor.

Esta fala propõe uma abordagem ao mesmo tempo estética e política de uma obra que traz consigo um pensamento histórico. Através do conceito de Imagem-Afecção, pretendo analisar a montagem da obra História(s) do Cinema com o objetivo de contribuir para os caminhos estético-políticos do século XXI.

Tais caminhos situam-se em uma problematização do estatuto da representação das imagens, de Chris Marker e Harun Farocki, até João Moreira Salles e Eduardo Scorel, onde as imagens de arquivo são trabalhadas em sua materialidade, entre documento e as ficções que as atravessam, virtual e atualmente, tornando visível o sentido histórico, que não se reduz às unicidades narrativas.
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artigos

FAIRFAX, Daniel. “Montage(s) of a Disaster: Voyage(s) en utopie by Jean-Luc Godard.” Cinema Journal 54 (e outros).