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  Título
Um Disney antidisneiano
Autor
Annateresa Fabris
Resumo Expandido
Uma pantera vaga pela selva. Lobos dormem, coçam-se, ficam sentados. Um píton tenta alcançar a pantera, mas desiste. Um grupo de elefantes anda por uma campina. Um urso anda pela floresta e nada longamente no rio. Macacos comem, coçam-se, sobem em troncos de árvores. Um tigre é impedido de caçar. Abutres executam pequenas ações. Uma menina dirige-se cantando para o rio e, depois de buscar água, volta para a aldeia.

O espectador de certa idade tem a impressão de já ter assistido a "A pura necessidade" ("Die reine Notwendigkeit", 2016), mas, ao puxar pela memória, percebe que há algo de diferente em relação às imagens vistas no passado. O efeito de estranhamento é, de fato, um dos aspectos centrais do vídeo de David Claerbout, para quem a animação "Mogli, o menino lobo" ("The jungle book", 1967) do Estúdio Disney serve de ponto de partida para uma reflexão instigante sobre os conceitos de temporalidade, lugar e história.

Se bem que os quadros do filme de 1967 tenham sido redesenhados com pequenas alterações pelo artista belga e seus colaboradores, o resultado final é absolutamente antidisneiano. Mogli não é o protagonista da história e os animais não exibem um comportamento antropomórfico, mesmo quando têm feições e cabelos humanos (elefantinho e abutres). Em sua revisão do clássico dirigido por Wolfgang Reitherman, o artista belga não só retira da história o enredo protagonizado por Mogli, como reconduz a pantera Bagheera, o urso Baloo, o píton Kaa, o tigre Shere Khan, o elefante Coronel Hathi (e a esposa Winifred), o orangotango King Louie e os abutres Buzzie, Flaps, Dizzie e Ziggy à sua estrita condição animal, mostrando-os, por isso mesmo, em ações corriqueiras de sobrevivência. A comédia musical de 1967 perde todas as suas características. A música é substituída pelos sons da selva; o enredo cede lugar a ações corriqueiras temporalmente dilatadas; o canto, a dança e o humor desaparecem por completo, já que o que move Claerbout é a busca de uma condição animal absoluta, emblemada no título de sua obra "A pura necessidade". Inspirando-se no título da canção interpretada por Mogli e Baloo, "The bare necessity", o artista revisita a animação de 1967 com o objetivo de interrogar alguns dos pressupostos centrais do antropomorfismo, que podem ser resumidos nas indagações de Brian Massumi, para quem esse tipo de postura delega aos animais o status de autômatos destituídos de pensamentos, emoções e desejos próprios. A única presença humana – a menina que aparece no final do filme de 1967 – parece confirmar esse tipo de preocupação, uma vez que ela se inscreve no mesmo espaço de sobrevivência ocupado pelos animais. Deixando de lado a projeção das características humanas nos animais, Claerbout dá a impressão de defender uma postura contrária, afirmando a existência de um continuum animal, no qual a humanidade perde seu predomínio apriorístico, sem que a diferença entre as duas espécies seja negada ou apagada.
Bibliografia

Eisenstein, Serguei. “Walt Disney”. Belval: Éditions Circé, 2013; Giorgi, Gabriel. “Formas comuns: animalidade, literatura, biopolítica”. Rio de Janeiro: Rocco, 2016; Kipling, Rudyard. “Os livros da selva: contos de Mowgli e outras histórias”. Rio de Janeiro: Zahar, 2016; Leslie, Esther. “Hollywood flatlands: animation, critical theory and the avant-garde”. London-New York: Verso, 2004; Massumi, Brian. “O que os animais nos ensinam sobre política”. São Paulo: N-1 Edições, 2017; Sansom, Anna. Countering the classic: cheeky David Claerbout. “DAMN Magazine”, n. 59, dez. 2016. Disponível em . Acesso: 29 jan. 2018.