Voltar para a lista
 
  Título
1968 no cinema latino-americano: contracultura e vanguarda
Autor
Estevão de Pinho Garcia
Resumo Expandido
A ruptura eclodida em 1968, no que tange ao surgimento de novas percepções frente a relação entre arte e política, se reverbera e tem suas consequências nos anos imediatamente posteriores. Temos uma expansão do sentido de política. Esse alargamento do termo, longe de significar o seu abandono, se remete a um prolongamento para esferas antes consideradas fora de seus domínios como a sexualidade, o inconsciente, o corpo, o comportamento individual e a linguagem. A premissa do “tudo é política” torna-se dominante. A ressonância desta noção no campo do cinema repercute em vê-lo como um campo de batalha autônomo e independente e não uma mera extensão das lutas e conflitos da sociedade. Se antes de 1968 o percurso era da política para o cinema, agora, uma nova via percebida é do cinema para a política. A forma e a estética começam a carregar intrinsecamente o estatuto de compromisso político. Experimentar com a imagem e investigar outros caminhos estéticos tornaram-se uma nova maneira de ser político, de fazer política. Nos cinemas brasileiro e argentino dinâmicas como a Belair e o Cine Subterráneo, respectivamente, se encontravam sintonizadas com esses novos rumos. Entre eles, o que foi chamado de contracultura. Compreendemos como contracultura a explosão de um conjunto de manifestações ocorrida neste momento em diversas partes do mundo que, levadas a cabo pela juventude, repudiava o modo de vida “burguês”. Dentro do seu imaginário e de sua maneira de proceder sobressaem-se a recusa às regras ditadas pelo capitalismo e a busca de um modo de vida simples, muitas vezes comunitário, descompromissado com o acúmulo de bens materiais; a defesa do irracionalismo manifestado na recuperação de determinadas vanguardas artísticas; o hedonismo expresso na valorização das experiências sensoriais e corporais; o não alinhamento a partidos ou a ideologias políticas definidas e a sintonia com um posicionamento genericamente chamado de “anarquista”. A Belair e o Cine Subterráneo, ao mesmo tempo em que respondem a um contexto global, o filtram a partir de seus lugares de origem. As duas manifestações se situam em um momento de ressaca vivenciado por seus respectivos países. A produtora Belair surge em 1970. A tendência do Cine Subterráneo em 1971. Tanto o ano de 1970 no Brasil como o de 1971 na Argentina são anos que sucedem um período de grande efervescência cultural e política caracterizados por uma repressão crescente que decretou o seu fim. O período 1964-1969 no Brasil, analisado por Roberto Schwarz em Cultura e política, apresenta similaridades ao período 1966-1970 na Argentina. Em ambos há a hegemonia de uma cultura de esquerda ou opositora ao regime que se no início foi de certa forma “tolerada” no final teve que ser violentamente sufocada. Nos dois países os dois períodos se iniciam com um golpe militar: o de 1964 no Brasil e o de 1966 na Argentina. Podemos indicar também que nos dois países os períodos se encerram com uma ação efetivada pelo regime contra a contracultura: a prisão e o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil e com isso o fim do tropicalismo, no Brasil, e o fechamento do Instituto Di Tella, na Argentina. A ideia de contracultura liga-se ao conceito de vanguarda artística. Consideramos a Belair e o Cine Subterráneo como dinâmicas vanguardistas por conta dos seguintes fatores: 1) a ênfase na pesquisa formal 2) a ideia de ser o “novo” em combate com o “velho” 3) a convergência ao princípio da não conciliação expresso pela recusa ao cinema comercial, ao gosto padronizado do público e a qualquer aproximação com a instituição cinematográfica 4) a eleição por imagens capazes de agredir ou chocar e 5) o questionamento do estatuto tradicional do filme ao optarem por outros procedimentos no que se refere a sua produção, distribuição e recepção. Utilizando as noções de contracultura e vanguarda objetivamos, por meio de uma abordagem panorâmica aos filmes da Belair e do Cine Subterráneo, analisar a incidência da atmosfera pós-1968.
Bibliografia

MESTMAN, Mariano. (Org.). Las rupturas del 68 en el cine de América Latina: contracultura, experimentación y política. Buenos Aires: Akal, 2016.

__________; LONGONI, Ana. Del Di Tella a “Tucumán arde”. Vanguardia artística y política en el 68 argentino. Buenos Aires: El cielo por Asalto, 2000.

ROSZAK, Theodore. A contracultura. 2º ed. Petrópolis: Vozes, 1972.

SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969 in ______. O pai de família e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

TIRRI, Néstor. Alianzas contestarias (Ludueña, Bejo, Cozarinsky) in ______. (Org.). El grupo de los 5 y sus contemporáneos: pioneros del cine independiente en la Argentina (1968-1975). Buenos Aires: Secretaria de Cultura, 2000.

WOLKOWIKS, Paula. Vanguardia y política. El cine underground argentino de los años setenta. Tese de Doutorado. Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2015.