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  Título
À SOMBRA DA FEMME FATALE: algumas personagens femininas em Tarantino
Autor
Carolina de Oliveira Silva
Resumo Expandido
Em “Hollywood Heroine – Women in Film Noir and the Female Gothic Film” (2007), Helen Hanson explica o surgimento da femme fatale como uma representação da ansiedade masculina sobre a liberdade sexual e econômica das mulheres na sociedade do pós-guerra. Embora essa figura tenha sido importante para os debates feministas sobre as políticas de representação em Hollywood, ela não se resume as polaridades. A crítica feminista da segunda onda na década de 1970 argumentava essa representação complexa da figura da femme fatale: olhar para o momento contemporâneo é reconhecer a sua variedade.

Slavoj Zizek (2009) apresenta uma discussão para as possíveis interpretações advindas do espectador, utilizando a figura da femme fatale como exemplo de subversão. Zizek inclui a neo-femme fatale como uma figura mais eficaz na ameaça ao patriarcado que a sua espectral clássica, já que ela possui a consciência de que os homens fantasiam sobre ela e utiliza esse informação a seu favor. O estudo acerca dos arquétipos do gênero noir realizado por Lloyd Hughes (2005), enumera outras figuras femininas: a moll ou a “garota da sociedade”, um tipo de mulher que era seduzida pelo poder e riqueza, mortífera e a mother ou mãe, uma combinação de ingenuidade e cumplicidade, mas que ainda assim é corrompida pelos pecados em sua índole de dominação.

Tais alternativas, prosseguem e são restituídas por Tarantino em um reconhecimento e ampliação de suas próprias personagens, agora aliadas a um comportamento histérico atribuído a uma possível fraqueza emocional feminina, mas que, na verdade, é também reconhecido até nas paranoicas personagens masculinas. A femme fatale é quase sempre condensada a competências negativas, introduzindo uma desordem no plácido mundo masculino, que é, também, subvertida: a mulher pode tomar diversas formas para atrair o homem. Logo, a modificação da figura feminina nos filmes de crime acontece devido a uma transformação das regras do que é privado e particular, são as mudanças históricas e sociais que imperam uma nova identidade para a mulher, suscetível de ser transferida, reapropriada ou invertida.

Como argumenta Kate Stables (1998) o filme pós-moderno emprega a femme fatale como um arquétipo universal da ansiedade – uma figura que exibe as novas preocupações culturais. Atrevida e forte, a neo-femme fatale leva as mulheres a um novo território, ainda que para Helen Hanson muitos filmes não sustentem uma relação direta com a experiência real das mulheres, a análise proposta aqui, indica o contrário.

As protagonistas femininas em Kill Bill (2003/2004), À Prova de Morte (2007) e Django Livre (2012) estão submetidas a um tipo de construção complexa, ainda confundidas como apenas uma forma deleitosa à visão masculina, mas quando analisadas em seu lugar de opressão e resistência – reverberam espaços que pretendem conceber o sujeito feminino como autônomo. Nesse caso, um dos aspectos contemporâneos mais relevantes, é a tendência em poder neutralizar as interpretações misóginas que leem o corpo feminino de forma submissa.

A subordinação feminina não é totalmente execrada nessas histórias de Tarantino, a exploração de concepções obsoletas que dão ênfase na vitimização ou na figura feminina como uma intérprete sexual, são trabalhadas não no sentido de confirmá-las, mas expô-las justamente de maneira crítica. O pós-feminismo, responsável pelo sujeito independente e criador de suas regras de conduta, não elimina seus estorvos – as esposas, amigas, vítimas e vulneráveis – elas serão incorporadas a identidade da neo-femme fatale, trazendo um leque de personagens sob à sombra, olhando para o momento atual e reconhecendo a sua diversidade.
Bibliografia

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