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  Título
Retratos de identificação: entre mug shots e imagens clandestinas
Autor
Ricardo Lessa Filho
Resumo Expandido
Com Retratos de identificação (2014), Anita Leandro realiza de certa maneira um dos desejos mais abissais de Walter Benjamin (2012): dar um nome aos seres derrotados, dar uma fisionomia possível às vidas humanas destruídas pela violência. Assim, Leandro a partir dos documentos da Ditadura Militar Brasileira executa uma montagem ao mesmo tempo arquivista e cinematográfica, exerce com o seu filme um gesto de legibilidade histórica (BENJAMIN, 2004). Esta legibilidade histórica oferecida por Leandro ao nosso presente é em sua natureza mesma uma montagem dialética cujas imagens são postas em confronto – que são dispostas com o desejo de escavar, de reencontrar e renomear as vidas perfuradas pelo regime militar brasileiro.



Retratos de identificação vem para responder a própria indagação de sua realizadora sobre a insuficiente memória nacional: “qual seria o papel das imagens documentais na construção das narrativas históricas sobre o período (militar brasileiro)?” (LEANDRO, 2016). Este papel das imagens documentais – das imagens-arquivo – tem uma resposta poderosa nos documentos recuperados por Leandro para a confecção de seu filme, de sua montagem. Sobretudo para nós no tocante às imagens resgatadas pela cineasta de duas vidas – de duas fisionomias – arrancadas deste mundo pela violência militar brasileira, e seus nomes são: Chael Charles Schreier e Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dora



Destas duas vidas humanas cindidas, dar-se-á o desejo de nosso trabalho: propor a análise dos mug shots e das imagens clandestinas realizadas pelos perpetradores da violência militar brasileira a partir da montagem existente em Retratos de identificação, e como estas imagens, originalmente marcadas para registrar e acusar os presos políticos da época, quando alçadas ao tempo tornam-se arquivos fundamentais das violências e assassinatos exercidos pelos militares.



Os mug shots em Retratos de identificação são formados por imagens realizadas pelos perpetradores da violência militar. Estas imagens são também conhecidas como as famosas “fotos de prisioneiro”, figuras estas onde o indivíduo então em reclusão é fotografado em pelo menos dois ângulos distintos: frontalmente e de perfil. Desta maneira, os mug shots de Chael e Dora confeccionados pelos militares em 1969, tornam-se eles mesmos um testemunho basilar da repressão e do horror: de suas fisionomias de dor, de humilhação em seus respectivos mug shots, lágrimas silenciosas tornam-se aparentes em seus rostos e assim instauram nestas imagens mesmas um reconhecimento anacrônico daquelas vidas – sua insistência pela verdade, seu desejo por uma legibilidade apesar de tudo.



A montagem como gesto dialético, como etapa privilegiada do trabalho com os arquivos e com o tempo (LEANDRO, 2010; DIDI-HUBERMAN, 2008), mas também como gesto de reconhecimento. Um reconhecimento pela montagem é o que Leandro opera ao iniciar o seu documentário com as imagens até então secretas capturadas pelos militares do dia a dia de Dora, imagens clandestinas que ratificam a perversidade dos órgãos militares brasileiros. Nestas imagens clandestinas podemos ver o modo como os militares registravam os passos diários de Dora: chamam-na de “Alvo”, isto é, de alguma coisa que precisa e será “abatida” brevemente. A “clandestinidade” do regime militar, como bem sabemos, não ficou apenas destinada aos registros de imagens: quantas valas não foram abertas, quantos corpos não foram assassinados à luz de um segredo total, à luz de toda clandestinidade?



Assim, o nosso trabalho buscará apresentar as urgentes aproximações que Leandro e o seu filme realizam entre o arquivo e a sua memória, entre as imagens e a sua legibilidade histórica. Desta maneira Retratos de identificação pode também ser compreendido como uma morada para a memória (DERRIDA, 2001) ao mesmo tempo como um gesto de luto, pois somente o reconhecimento da morte permite a plenitude da vida (GAGNEBIN, 2000). Graças ao filme de Anita Leandro, Chael e Dora voltaram a viver.
Bibliografia

BENJAMIN, W. Libro de los pasages. Madrid: Akal, 2004.

_________. O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica , 2012.

DERRIDA, J. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Cuando las imágenes tomam posición. Madrid: A. Machado Libros, 2008.

_________. Remontages du temps subi. L'oeil de l'histoire, 2. Paris: Minuit, 2010.

FARGE, A. O sabor do arquivo. São Paulo: EDUSP, 2009.

GAGNEBIN, J.-M. Palavras para Hurbinek. In: Catástrofe e representação, pp. 99-110. São Paulo: Escuta, 2000.

LEANDRO, Anita. Falkenau: a vida póstuma dos arquivos. In: Significação, nº34, pp. 105-121, 2010.

_________. Os acervos da ditadura na mesa de montagem. In: LOGOS 45, v. 23, n. 02, pp. 103-116, 2016.

LINDEPERG, S. La voie des images: quatre histoires de tournage au printemps-été 1944. Paris: Editions Verdier, 2013.

SÁNCHEZ-BIOSCA, V. Exploración, experiencia y emoción de archivo. A modo de introducción. In: Aniki, v. 2, n. 2, pp. 220-223, 2015.