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  Título
Raul Solnado, comediante, entertainer e one-man-show português
Autor
Afrânio Mendes Catani
Resumo Expandido
Raul Augusto de Almeida Solnado (1929-2009) foi o cômico português mais popular e criativo entre os anos 1960 e o final da década seguinte. João Paulo Bénard escreveu que Solnado reinou entre a geração de António Silva e Vasco Santana e a de Herman José e seus discípulos.



Iniciando sua carreira como ator amador em 1947, se profissionaliza apenas em 1952. A partir daí, fez de tudo: opereta, revista, comédia, rádio, televisão, talk~shows, gravou discos com monólogos cômicos de sua autoria, foi entertainer, one-man-show, proprietário de teatro e ator cinematográfico, filmando cerca de 15 películas e, ao longo de mais de dez anos, viveu e trabalhou no Brasil, alternando suas atividades entre os dois países de fala portuguesa. Quando garoto, assisti a muitas apresentações de Solnado na televisão, em especial seus monólogos na TV Record de São Paulo – nos anos 1970 trabalhou na Globo.



Solnado gravou mais de 30 discos, sendo 2 LPs dos monólogos “A guerra de 1908” e “A história da minha vida” alcançaram venda superior aos gravados pela famosa fadista Amália Rodrigues. Na TV portuguesa, com os programas “Zip Zip” (1969) e “A visita da Cornélia” (1977), conseguiu índices de audiência fabulosos. Estreia no teatro de revista em 1953 com “Viva o luxo” e, em seguida faz, dentre outros, revistas – “Ela não gostava do patrão”, 1954; “Três rapazes uma rapariga”, 1956; “Música, mulheres e...”, 1957; “Vinho novo”, 1959; “Lisboa à noite”, 1962; “Prá frente Lisboa”, 1972 -, peças teatrais – “O impostor geral”, 1965; “O vison voador”, 1969; “O Tartufo”, de Molière, 1972; “Checkup”, 1974; “Isto é que me dói”; “Há petróleo no Bento”, 1982; “As fúrias”, de Agustina Bessa-Luís, 1994; “O magnífico Reitor”, 2001 - , opereta – “O morcego”, de Strauss, 1992 -, além de telenovelas, shows, programas televisivos. Com a então mulher, Leonor Xavier, publicou sua biografia, “A vida não se perdeu”, 1991.



No cinema, Solnado filmou uma dezena e meia de películas, além do curta-metragem Ar, água e luz (Ricardo Malheiro, 1956), para a Campanha Nacional de Educação de Adultos em Portugal. Estreou no longa de Arthur Duarte, O noivo das Caldas (1956), comédia em que interpreta um detetive de hotel. Fez mais duas comédias, Perdeu-se um marido (Henrique Campos, 1956) e Sangue Toureiro (Augusto Fraga, 1958), o primeiro longa-metragem colorido português, valendo-se da fórmula “fado e touros” e história de paixões perigosas e arrebatadoras, com a fadista Amália Rodrigues e o toureiro Diamantino Viseu. Em 1958, em O Tarzan do 5º. Esquerdo (A. Fraga, 1958), atuou em seu primeiro papel como protagonista. Apesar de fraco, o filme obteve êxito de público. Perdigão Queiroga o dirigiu em As pupilas do Senhor Reitor (1961) – versão da obra de Júlio Dinis, com Anselmo Duarte encabeçando o elenco – e em O milionário (1967), este como ator principal. Mas foi com Dom Roberto (José Henrique de Sousa, 1962), único longa do realizador, fita fundadora do Novo Cinema Português, fortemente influenciado pelo Neorrealismo, que Solnado demonstrou ser o ator completo, capaz de atuar em qualquer gênero, vivendo um sonhador, que exibe fantoches. O filme fracassou comercialmente e ele, desiludido, só voltou a filmar em 1975, com As aventuras de um detetive português (Stefan Wahl), produção luso-brasileira.



Depois, trabalhou em O bobo (J. A. Morais, 1987) e A balada da praia dos cães (Fonseca e Costa, 1987), adaptado do romance de José Cardoso Pires, sendo o inspetor Elias Santana. Sua filmografia se completa com 5 outras aparições: Aqui d´El Rei (António-Pedro Vasconcelos, 1992), telefilme produzido entre os canais públicos de Portugal (RTP), Espanha (TVE) e França (France 3); Réquien (Alain Tanner, 1998), adaptação do romance de Antonio Tabucchi; Facas e anjos (Eduardo Guedes, 2000), telefilme em que fez o palhaço Catita; Call Girl A. P. Vasconcelos, 2007) e o exibido postumamente, América (João Nunes Pinto, 2010).
Bibliografia

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