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  Título
LA CIÉNAGA: HORIZONTALIDADES ANESTÉSICAS E CONVÍVIOS FAMILIARES
Autor
Sandra Fischer
Coautor
Aline Vaz
Resumo Expandido
Este trabalho dedica-se ao filme La Ciénaga (Lucrecia Martel; Argentina, 2001), enfocando a re-apresentação da instituição familiar. O propósito é indagar as narrativas cotidianas de uma nação assolada pelos efeitos deletérios de ditaduras e de políticas neoliberais, cujos restos e rastros de crises e iniquidades configuram-se, fragmentariamente, nas imagens da família que, horizontalmente posicionada nos enquadramentos fílmicos, instala-se na paisagem anestésica de um ambiente doméstico marcado pelo quadriculamento (FOUCAULT, 2014) e pela rarefação de apropriações físicas e afetivas. Na Argentina pós-ditadura, a chegada da década de 90 não se faz menos ameaçadora: nesses anos sucedentes, as agruras resultantes do neoliberalismo econômico implantado por um Estado desertor de suas responsabilidades, afetam diretamente a ordem do humano, engendrando desamparos e abandonos. Nicolás Casullo (2002) observa o impacto e as consequências desse cenário político nos modos de vivenciar o espaço doméstico; Ana Amado e Nora Domínguez (2004), por seu turno, ressaltam que existe na Argentina, desde os anos 70, um encadeamento metafórico entre a família, a ficção e o discurso político. Desse modo, e tendo em vista que a família, nos termos de Claude Lévi-Strauss (1984), apresenta-se como condição e negação da sociedade, pensamos que o cinema argentino ocupa posição privilegiada no sentido de viabilizar re-apresentações (FISCHER, 2006) desse agrupamento, inscrevendo na tela da sala escura imagens de cotidianos que revelam feridas e cicatrizes de uma sociedade em crise, de um país dividido e algo à deriva. Ao tratar desse cinema que se obstina em apresentar uma política do cotidiano e das subjetividades, Angela Prysthon (2015) debruça-se, assim como fazemos aqui, sobre La Ciénaga – identificando ali uma “estética do sedentarismo” ou “poética da decomposição” que resulta em uma “visão devastadora do cotidiano e das relações entre classes, gêneros e gerações” na Argentina contemporânea; para a pesquisadora, o filme enquadra a inércia, sublinha o sinistro que existe no banal e apresenta sintomas alegóricos: “a vaca atolada no pântano, as estranhas relações entre os senhores da casa e seus subalternos, as intempéries naturais oprimindo os personagens seriam indícios, partes componentes de uma alegoria para falar da nação”. Em certa medida, dialogamos com Pryston ao divisarmos, no cinema de Martel, uma re-apresentação do lugar físico e social. No caso específico de La Ciénaga, colocando em cena convívios familiares como metáfora/metonímia de uma memória pós-ditatorial (memória esta cujo lugar é delineado, no âmbito do coletivo e do individual, pelos vestígios indeléveis de um passado que se atualiza cotidianamente) o filme, potencial e reflexivamente, re-apresenta a família em imagens que associam-na à ditadura explícita do governo militar (normativo e repressor) e ao autoritarismo implícito do neoliberalismo (excludente e reificante). No estudo que ora apresentamos, propomos olhar para La Ciénaga a partir da reiteração isotópica dos corpos horizontalizados (deitados, amontoados, tombados) contidos nos quadriculamentos da casa familiar. Considerando os aludidos rastros e restos verificáveis nas narrativas do cotidiano (as quais acolhem certa melancolia social e familiar que traça uma linha tênue entre o que é da ordem do público e o que é da ordem do privado), buscamos analisar as horizontalidades do filme pela ótica de duas noções, opostas e transversais: 1) a de paisagens anestésicas – análogas aos ordenamentos classificatórios, típicos dos sistemas opressores com suas concernentes dinâmicas paralisadoras (FISCHER, 2006); 2) a de espaços estésicos – constituídos pelo movimento relacional fatalmente inerente ao co-habitar, que possibilitam a apropriação e a compreensão do ser e estar no mundo (HEIDEGGER, 1979) por meio das oscilações e anacolutos intrínsecos a toda mobilidade.
Bibliografia

AMADO, A.; DOMÍNGUEZ, N. (Orgs). Lazos de família: herencias, cuerpos, ficciones. Buenos Aires: Paidós, 2004.

CASULO, N. Sobre Paolo Virno: ¿qué es lo que politicamente nos está sucedendo em la Argentina? In: Revista de Crítica Cultural, nº 24, jun., Santiago de Chile, 2002.

FISCHER, S. Clausura e compartilhamento: a família no cinema de Saura e Almodóvar. S. Paulo: Annablume, 2006.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2014.

HEIDEGGER, M. Os pensadores: Martin Heidegger - Conferências e escritos filosóficos. S. Paulo: Nova Cultural, 1979.

LÉVI-STRAUSS, C. La família. In: LÉVI-STRAUS, C; SPIRO, M; GOUGH, K. Polémica sobre el origem y la universalidade de la família. Barcelona, Anagrama, 4ª ed., 1984.

PRYSTHON, A. Fantasmas da imobilidade: cinema argentino, Lucrecia Martel e a mulher sem cabeça. Acesso: https://www.academia.edu/35262687/Fantasmas_da_imobilidade_cinema_argentino_Lucrecia_Martel_e_a_mulher_sem_cabeça. Disponível em: 26 abr. 2017.