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  Título
A projeção por transparência nos cinemas brasileiros no período mudo
Autor
Rafael de Luna Freire
Resumo Expandido
Existem dois modos básicos de projeção cinematográfica. No caso da “situação cinema” clássica, um projetor é localizado atrás do público enquanto projeta o filme numa tela reflexiva à frente dos espectadores. Entretanto, num modo alternativo, o projetor pode ser localizado atrás da tela, projetando o filme numa tela translúcida para o público localizado do outro lado. Hoje chamado de “retroprojeção”, no início do século XX esse modo era conhecido no Brasil como “projeção por transparência”.

Chamada em inglês de “rear-projection”, “backscreen projection” ou “background projection”, nos Estados Unidos ela é uma prática abordada pelos historiadores do cinema apenas como um efeito especial hoje obsoleto. Ou seja, era apenas uma técnica frequentemente utilizada nos estúdios de Hollywood em cenas quando atores eram filmados à frente de uma tela, atrás da qual era projetado o cenário onde seus personagens supostamente estavam.

Em outros espaços que não a sala de cinema, a retroprojeção foi e continua sendo frequentemente utilizada, sendo às vezes tecnicamente mais adequada para salões de convenção, apresentações corporativas ou festas de casamento.

Entretanto, esse artigo irá abordar o amplo uso da projeção por transparência nas salas de cinema brasileiras em suas sessões regulares durante o período silencioso. Apresentaremos evidência do uso desse tipo de projeção em diferentes cidades do Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife) nas décadas de 1910 e 1920, discutindo suas origens, características e consequências (SOUZA, 2016, SARAIVA, 2013).

Evidentemente, a prática da projeção por transparência pode ser remontada aos espetáculos de lanterna mágica. Lembremos que o sucesso das fantasmagorias imortalizadas por Robertson no final do século XVIII dependiam de alguns princípios, entre eles o de que “os espectadores jamais deviam ver o equipamento de projeção, que ficava escondido atrás da tela” (MANNONI, 2003, p. 151). Trata-se, porém, de uma prática radicalmente diferente da que foi colocada em uso nas primeiras projeções cinematográficas do final do século XIX, quando o projetor era uma atração e, por isso, frequentemente disposto em meio ao público para ser visto e admirado. Por vários motivos, o projetor aos poucos recuou ainda mais em relação à tela, até se alojar numa cabine, ao fundo da sala e nas costas do público. Assim chegamos à consolidação da “situação cinema” como descrita no início do texto.

Por quais motivos, porém, um modo alternativo de projeção foi tão frequente no Brasil durante o período silencioso? Trata-se de uma característica da história das exibições de filmes que, no exterior e também no Brasil, os historiadores, até bem recentemente, jamais tinham apontado (CHRISTIE, 2016, MENDES, 2013).

Se na França a “projection par transparence” era uma prática regular (KRESS, 1913), nossa hipótese é que a influência da cultura francesa é o que explica a adoção desse sistema no Brasil. Afinal, era da França que vinham também a maior parte dos filmes e dos projetores utilizados no Brasil até a Primeira Guerra Mundial, como os da Pathé e Gaumont.

Entretanto, quais foram as condições específicas da cultura cinematográfica brasileira que motivaram a projeção por transparência ser tão amplamente adotada? Era uma questão de segurança, com a tela servindo como uma barreira (mais simbólica do que concreta) que distanciava o espectador das perigosas películas inflamáveis? Era o resultado da típica ocupação urbana nas grandes cidades brasileiras (REIS FILHO, 2000), com seus lotes compridos e estreitos que favoreciam esse tipo de projeção? Por último, quais foram as consequências da ampla adoção desse sistema de projeção? Que mudanças no espetáculo cinematográfica a necessidade de uma tela translúcida (e constantemente úmida) pode ter resultado?

Essa apresentação pretende discutir algumas dessas questões.
Bibliografia

CHRISTIE, I. (2016) The Stuff of Screens. In: CHATEAU, Dominique; MOURE, José (ed.). Screens: from materiality to spectatorship: A historical and theoretical reassessment. Amsterdam: Amsterdam University Press.

FREIRE, R. L. (2012) Cinematographo em Nictheroy: história das salas de cinema de Niterói. Niterói: Niterói Livros.

KRESS, E. (1913) Comment on installe et administre un cinéma. Paris: Cinéma-Revue.

MANNONI, L. (2003). A grande arte da luz e da sombra: arqueologia do cinema. São Paulo: Senac.

MENDES, R. (2013) Contribuição para a história da tecnologia de projeção da imagem em movimento. Informativo Arquivo Histórico de São Paulo, v. 8, n. 32, mar. http://www.arquiamigos.org.br/info/info32/i-ensaio.htm

REIS FILHO, N. G. (2000). Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva.

SARAIVA, K. (2013) Cinemas do Recife. Recife: Funcultura.

SOUZA, J. I. M. (2016) Salas de cinema e história urbana de São Paulo (1895-1930): o cinema dos engenheiros. São Paulo: Senac São Paulo.