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  Título
Por uma Ciência da Imagem
Autor
Alan Campos Araújo
Resumo Expandido
A presente comunicação defende que há elementos na imagem cinematográfica que escapam do diretor que o realizou ou do gênero cinematográfico em que ela está inserida. Particularidades que reconfiguram a imagem em um contexto imagético muito mais amplo do que o cinema. O presente trabalho pretende abordar os problemas que surgem ao se lidar com a imagem cinematográfica fora do cinema e por metodologias que escapam da análise fílmica.



Através de um estudo aprofundado dos conceitos de Pathosformel e do projeto inacabado do atlas Mnmosyne – ambos conceitos oriundos do trabalho fascinante do historiador de imagens, Aby Warburg – e dos teóricos inspirados por ele, Didi-Huberman e Giorgio Agamben (bem como outros), essa proposta defende a importância de uma antropologia da imagem dentro dos estudos de cinema.



Trazendo questões acerca dos efeitos de pathos (para nos utilizarmos de um vocabulário próprio de Warburg), passando pelas recorrências formais entre as imagens, esse seminário tem como objetivo ressaltar os ganhos de um estudo de cinema por meio de uma abordagem comparativa da imagem que desconheça os limites entre imagens de diferentes mídias. Unindo forma e conteúdo em uma ferramenta metodológica para criar um mosaico de imagens que não sacrifique suas especificidades, mas que crie sensações e efeitos afetivos. Nos interessa estudar um filme por metodologias que levem em consideração o deslocamento que a imagem é capaz de efetuar no espectador, retirando-o da cena em questão e indo em direção a uma malha de imagens que possuem certas “afinidades” afetivas entre si, trabalhando em favor de uma cultura visual e, assim, compondo um saber visual, o saber inesgotável, o saber por imagem (HUBERMAN, 2013).



Essa comunicação não crê que as imagens existem enquanto casos isolados a serem decifrados à mercê do campo de estudo que for conveniente para o pesquisador, acreditamos que a própria imagem é um campo de estudo. Saindo da limitação de um único objeto, pretende-se ressaltar a importância das “apostas” que o pesquisador possui em relação a várias imagens como ferramenta de análise para a construção de saberes ainda não construídos, mas que são feitos a partir dos efeitos que as imagens provocam ao serem colocadas em relação.



O objeto de análise deste trabalho assume como ponto de partida o caráter agressivo de uma cena do filme Cães Errantes (Tsai Ming-liang, 2013), relacionando-as com a imagem do Saturno devorando um de seus filhos na famosa pintura de Goya, com o cinema oriental contemporâneo, com a violência gráfica do cinema de David Cronenberg, e com diversas fotografias que variam entre a imagem do performer Iggy Pop até as imagens de vítimas da guerra do vietnã. Tal análise não poderia ser configurada de outra maneira senão em um atlas de imagens atravessada pela intensidade de Pathos. Esse que, segundo Didi-Huberman (2013, p. 12), “introduz o múltiplo, o diverso, a hibridez de toda a montagem”. Através da prancha são expostas afinidades, recorrências, reverberações, apontando para paralelos entre as imagens que de outra maneira não poderiam ser percebidos, dessa maneira, ampliando os estudos de cinema para um saber visual que se configura em uma verdadeira ciência da imagem.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Ninfas. São Paulo: Editora Hedra, 2012.

BREDEKAMP, Horst. Teoria do Acto Icónico. Lisboa, Portugal: KKYM, 2015.

DE LUCA, Tiago; JORGE, Nuno Barrados (Org). Slow Cinema. 1st ed. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2016.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa, Portugal: KKYM, 2013.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

WARBURG, Aby. “Durer e a Antiguidade italiana”. In: WAIZBORT, L (orgs) História de Fantasma para Gente Grande – Escritos, esboços e conferências. Leopoldo Waizbort. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2015.