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  Título
Identidade e Humanismo: ecos do projeto "Os Gigantes do Douro".
Autor
Mariana Veiga Copertino Ferreira da Silva
Resumo Expandido
Durante sua carreira cinematográfica, Manoel de Oliveira teve alguns de seus projetos engavetados, sobretudos os que foram argumentados nas primeiras décadas de sua produção; dentre os quais destaca-se o projeto Os Gigantes do Douro, de 1934. O filme foi encomendado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) e tinha como intenção documentar a realidade dos trabalhadores envolvidos na produção de vinho, desde o plantio da uva até a venda do néctar nas caves. Devido a atrasos na chegada do equipamento de filmagem, o IVDP acabou desistindo de financiar o documentário que não pôde, justamente pela falta de verba, ser levado a cabo.

Contudo, Manoel de Oliveira não desistiu completamente d’Os Gigantes do Douro, que volta a aparecer como remissão em muitas das produções realizadas ao longo de sua carreira. A ideia de retratar a atividade vinícola e o labor humano é resgatada em muitos dos filmes do realizador, com particular atenção dedicada à região do Vale do Douro e dos trabalhadores que ali passam toda a sua vida. Ainda antes da argumentação do projeto d’Os Gigantes, Oliveira já manifestou a preocupação com o retrato social, em seu primeiro documentário Douro, faina fluvial, de 1931, que revela a realidade dos trabalhadores do cais da ribeira do Porto. A temática do trabalho retorna à produção oliveiriana em muitos dos filmes que se seguiram, desde o Acto da Primavera, filme antológico de 1963, até o mais recente O estranho caso de Angélica, de 2010.

Destarte, esta comunicação propõe-se analisar as remissões do projeto de 1934 na obra de Manoel de Oliveira, observando, particularmente, a forma como o realizador trabalha com o retrato do árduo labor humano, valendo-se de seu cinema como instrumento de retrato social, tanto na intenção de marcar na história o valor dos trabalhadores do Douro, quanto no intuito de fazer uma denúncia social. Dessa forma, o cinema oliveirano evidencia, em si, a dimensão política e social da obra do longevo realizador, uma vez que o trabalho da vinicultura representa um traço valorizador do povo português e da identidade lusitana.
Bibliografia

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