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  Título
O CINEMA NOVO NO INTENSO 1968
Autor
Maria do Socorro Sillva Carvalho
Resumo Expandido
Dois documentários recentes – Cinema Novo (Eryk Rocha, 2016) e No Intenso agora (João Moreira Salles, 2017) – inspiram essa comunicação sobre a produção do Cinema Novo no agitado ano de 1968, como uma espécie de convite para, mais uma vez, rever seus filmes, retomar ideias de seus realizadores, repensar suas imagens em seu tempo. Esse retorno ao Cinema Novo pode também nos ajudar na reflexão sobre o momento político do Brasil hoje. Nessa perspectiva, proponho um olhar sobre um conjunto de filmes produzidos em torno de 1968, momento em que o movimento era obrigado a se adaptar estética e politicamente ao crescente acirramento do regime militar, que culmina com a instauração do AI-5 em dezembro, o chamado golpe dentro do golpe. Da reconstrução de imagens de Eryk Rocha, nos chegam a força, a beleza e a crítica social criadas pelo movimento. Das ricas imagens de arquivo de João Moreira Salles, vemos a presença da morte e do luto no fim de um sonho juvenil de revolução, muito presente nos filmes cinemanovistas ao final dos anos 1960. Entre a vitalidade da primeira fase do movimento – caracterizada pela “estética da fome” nomeada por Glauber Rocha – e as tentativas de manter uma produção de filmes, destaco aqueles realizados entre 1967 e 1969 por seu núcleo fundador – Garota de Ipanema (Leon Hirszman, 1967), Capitu (Paulo Cezar Saraceni, 1968), O dragão da maldade contra o santo guerreiro (Glauber Rocha, 1969), Os herdeiros (Carlos Diegues, 1969), Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969) e Memória de Helena (Davis Neves, 1969). Buscando vencer a barreira da censura prévia, que interditava a exibição dos filmes realizados, gerando enormes prejuízos, e atingir o grande público, uma constante cobrança sobretudo de certos críticos, que acusavam o Cinema Novo de “hermético”, “paixão da crítica especializada”, esses filmes explicitam algumas estratégias dos realizadores: adaptação de obras literárias consagradas; deslocamento temático para questões femininas; discussão de temas históricos; aproximação com um cinema popular; e associação com produtores estrangeiros. Posteriormente a essas transformações do movimento, algumas bem-sucedidas na resposta do público, com destaque para Macunaíma, a maior bilheteria do Cinema Novo, os cineastas se dispersam. Entre 1969 e 1974, o período mais crítico da ditadura, cada um vai viver e tentar produzir apesar da repressão política. Era o fim do Cinema Novo como projeto coletivo. Contudo, para além desse tempo de “morte e luto”, o cinema moderno brasileiro estava consolidado com a filmografia desse núcleo cinemanovista, ampliado com os filmes de Nelson Pereira do Santos, Ruy Guerra, Roberto Santos, Gustavo Dahl, Walter Lima Júnior, Arnaldo Jabor e os representantes de uma quarta geração de “novos” cineastas, como Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Com destaque ainda para as sucessivas gerações que continuam a fazer cinema no Brasil, tendo no Cinema Novo uma importante referência, como é o caso de Eryk Rocha e João Moreira Salles.
Bibliografia

AVELLAR, J. C. O cinema dilacerado. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.

BERNARDET, J. C. Brasil em tempo de cinema. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

CARVALHO, M. S. “O Cinema Novo brasileiro” in MASCARELLO, F. (org.). História do cinema mundial. 7ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2012, p. 289-309.

ROCHA, G. Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra/Embrafilme, 1981.

ROCHA, G. Cartas ao mundo. Organização de Ivana Bentes. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SARACENI, P. C. Por dentro do Cinema Novo; minha viagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

XAVIER, I. Alegorias do subdesenvolvimento; Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal. São Paulo: Brasiliense, 1993.