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  Título
Tableau vivant como dispositivo: uma análise de Na Ventania
Autor
NINA VELASCO E CRUZ
Resumo Expandido
O filme estoniano Na Ventania (2014), de Marti Helde, narra a história de uma jovem estoniana que é separada de seu marido e deportada, junto com sua filha, para um campo de trabalhos forçados na Sibéria, após a invasão soviética na Estônia, na Segunda Guerra Mundial. O drama, que explora facetas ainda pouco conhecidas do horror desse momento histórico, chama atenção do espectador por um recurso estilístico: é construído em sua quase totalidade com planos-sequência formado por travellings de cenas completamente estáticas, remetendo ao dispositivo dos tableaux vivants.

A prática do Tableau vivant remonta à Idade Média, quando pessoas caracterizadas de personagens bíblicos “encenavam” em poses estáticas a cena do nascimento de Cristo na manjedoura, em presépios vivos, na Itália. No entanto, é apenas a partir do século XVIII que esse tipo de encenação aparecerá com mais regularidade, principalmente no contexto da cena teatral, após a grande importância dada a esse recurso dramático por Diderot. Mas será, sobretudo, no século XIX que os tableaux vivants irão se autonomizar e deixar de possuir apenas um caráter auxiliar na cena dramática para se tornar um gênero artístico com múltiplas funções, independente de uma narrativa teatral. Esse gênero, no entanto, vai permanecer de alguma forma com um aspecto secundário, pois se funda principalmente no reconhecimento, por parte do espectador, da obra de arte precedente a qual faz referência. É por essa razão que esse tipo de espetáculo era destinado, nessa época, principalmente ao público elitizado que possuía as referências artísticas necessárias para obter o prazer do reconhecimento.

A emergência desse gênero no século XVIII depende, assim, de duas condições: o reconhecimento pelas artes cênicas de sua dimensão estética e o surgimento de um público apto a reagir adequadamente a esse tipo de performance. No início do século XIX, entretanto, essa prática se populariza e ganha outros aspectos e manifestações menos nobres, atingindo a um público de massa. Os tableaux vivants podem ser arrolados ao conjunto de espetáculos que costumam ser reconhecidos como pré-cinematográficos, como os panoramas e os dioramas. Nesse período, os tableaux vivants chegaram a ser encenados em cabarés e musics halls como pretexto para a exibição de corpos nus, escapando assim da censura por seu passado sério e respeitável. Com o surgimento da fotografia e do cinema, os tableaux vivants são retomados com novas funções estéticas, especialmente nos primórdios dessas duas linguagens.

A relação dos primeiros cinemas com os tableaux vivants é perceptível, seja a partir de uma referência formal (como os primeiros filmes narrativos, montados com várias sequências de quadros fixos), ou mesmo a partir de representações explícitas de quadros famosos, muitas vezes para serem exibidos em casas de vaudevilles. Wiegand (2016) defende que há uma relação essencial entre esse primeiro cinema e os tableaux vivants pela dialética entre estaticidade e movimento. Essa dialética é certamente uma das características mais fundamentais do que estamos considerando que seja o “dispositivo tableau vivant”.

Se podemos chamar de tableaux vivants as cenas estáticas do filme Na ventania é justamente por esse elemento do dispositivo em questão: a escolha de um momento memorável na narrativa que é colocado em evidência pela estaticidade dos personagens, em um gesto claro e pregnante, que prefigura uma ação que transformará toda a narrativa.
Bibliografia

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DELEUZE, G. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

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JACOBS, Steven. Framing Pictures: Film and the Visual Arts. Edimburgh: Edinburgh Film Studies, 2011.

RAMOS, F. O espectador Bazin. In: Revista Imagens, v.8, Editora Unicamp, 1998.

VOUILLOUX, B. Conferência durante o Nouveau Festival (10/03/2012). Disponível em: http://www.dailymotion.com/video/xpma89 . Último acesso: 19 fev. 2018.

WIEGAND, D. Gebannte Bewegung: tableaux vivants und früer Film in der Kultur der Moderne. Marburg: Schüren, 2016.