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  Título
A profundidade de campo como recurso narrativo e estilístico
Autor
Bertrand de Souza Lira
Resumo Expandido
Antes do lançamento de Cidadão Kane (Orson Welles, 1941), considerado por estudiosos de cinema como um marco da retomada da técnica de profundidade de campo como recurso estético e narrativo, o cinema japonês, inspirado na tradição da sua xilogravura com seus “primeiros planos arrojados” (Bordwell, 2013), fazia uso corrente dessa técnica que, no entender de Marcel Martin, “é de extrema importância, pois implica uma concepção de direção e até mesmo uma concepção de cinema. (2007, p.165, grifos do autor). O diretor japonês Kenji Mizoguchi, por exemplo, manteve a tradição da encenação em profundidade de campo fazendo uso do “primeiro plano arrojado” até o final da década de 30. Fala-se de “primeiro plano arrojado”, quando a ação dramática é encenada exageradamente próxima da câmera e os demais elementos da cena são distribuídos ao longo da imagem, uma marca de alguns filmes de Welles. No entanto, Bordwell (2008) critica Bazin por considerar os norte-americanos Orson Welles e William Wyler como pioneiros na retomada do uso dessa técnica de encenação quando outras cinematografias já a utilizavam de forma sistemática em suas produções. Igualmente, Bordwell (2013) contradiz Comolli quando em um dos seus textos para o Cahiers du Cinéma sobre “técnica e ideologia” (especificamente sobre câmera, perspectiva e profundidade de campo), no início do anos 70, afirmava que a técnica da encenação em profundidade, entre 1925 e 1940, praticamente entrava em desuso. Não é o caso, por exemplo do cinema japonês, em particular do cinema de Mizoguchi que nos anos 20 e 30 lançou mão do artifício do primeiro plano arrojado, como seus contemporâneos japoneses, para, em seguida, passar ao uso da encenação em profundidade com o primeiro plano vazio. É a técnica que Bordwell (2008) chama de “profundidade reticente”, uma prática estilística na qual o diretor mantém o primeiro plano vazio, deslocando a ação dramática para os planos subseqüentes. A profundidade de campo nas imagens do primeiro cinema era uma determinante “natural” resultado do uso de objetivas (35mm e 50mm) que conferiam uma impressão de realidade já trabalhada na pintura renascentista com sua representação em perspectiva. Martin (1990) observa que só depois de 1925 é que essas lentes foram substituídas por objetivas mais luminosas por conta das películas pancromáticas (de início, com pouca sensibilidade), o que retirou o foco em profundidade. Os diretores que marcaram a sua encenação em profundidade, a partir de então, o fizeram deliberadamente como um recurso de mis-en-scène a exemplo de Mizoguchi. “O recurso à profundidade de campo possibilita, de fato, uma direção “sintética”, em que os deslocamentos no quadro tendem a substituir a mudança de plano e o movimento de câmera.” (Martin, 1990, p. 168).

O que pretendemos discutir aqui é o uso da técnica de encenação em profundidade de campo com propósitos diferentes por dois diretores (Welles e Mizoguchi) que apresentam estilos próprios de mis-en-scène. Enquanto Welles, com sua encenação em profundidade e primeiros planos arrojados, como em Cidadão Kane, com uma composição pictórica onde a ação principal era posta em primeiro plano e as demais ações eram distribuídas em planos intermediários e no plano de fundo, relacionando-as com fins à criação de suspense e surpresa, ferramentas da dramaturgia que intensificam o drama, Mizoguchi, ao contrário usava a profundidade de campo com outro propósito. Em Elegia de Osaka, (Kenji Mizoguchi, 1936), por exemplo, o diretor, ao contrário de Welles, desloca a cena principal para um plano intermediário ou de fundo, arrefecendo o drama, tornando-o visualmente menos explícito dentro de uma tradição cultural que mescla a valorização de pequenos gestos, a sutileza, com momentos de exacerbação das emoções.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2006.

BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 2013.

_________________ Figuras traçadas na luz: A encenação no cinema. Campinas, São Paulo: Papirus, 2008.

MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 1990.

OLIVEIRA JR., Luiz Carlos. A mise en scène no cinema: Do Clássico ao cinema de fluxo. Campinas, SP: Papirus, 2013.