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  Título
Fronteiras audiovisuais: cruzamentos clandestinos México - EUA
Autor
Maurício de Bragança
Resumo Expandido
O muro México/EUA é tomado aqui como um desses contornos de uma paisagem geopolítica que se complementa no desdobramento de vários outros muros e barreiras ao longo do planeta, e que evidenciam os sintomas de uma política demarcada pelos efeitos da extrema desigualdade social e da assimétrica distribuição de riquezas que acionam tais medidas como forma de manutenção das estratégias de exclusão. Cada um desses muros são frutos de seus contextos históricos particulares e demandam investigações capazes de reveler a especificidade dos conflitos envolvidos em aspectos politicamente demarcados, mas conformam um amplo cenário global que ganha relevância nas narrativas que apresentam as experiências sobre estes aparatos de controle e interdição. Aqui, a abordagem do muro como um lugar da enunciação no interior da produção cinematográfica e audiovisual produzida pelo México e Estados Unidos vai ser analisada a partir de uma aproximação a uma teoria decolonial que percebe as relações entre território e enunciação a partir daquilo que Anibal Quijano (2000) identifica na América Latina como a “colonialidade do poder”. Na dimensão de análise narrativa desta proposta, estes territórios se constroem como categorias de enunciação que se manifestam na ordem das relações de poder. Cada um desses territórios se organiza nesse sistema-mundo a partir de uma posição específica que tem a ver, inclusive, no âmbito da modernidade-colonialidade, com as políticas de racialização, que construiram a ideia de raça como categoria social. Percebemos de um lado a dominação territorial, de outro a questão da enunciação. Estas dinâmicas de dominação se tornaram ainda mais evidentes a partir da reconfiguração do projeto capitalista internacional quando da implementação das políticas neoliberais na América Latina, em fins dos anos 1980 e por toda a década de 1990, quando houve um aumento das práticas de exclusão social a partir da asfixia do Estado de Bem-estar Social em função da centralidade das políticas de mercado, que passam a se confundir com as políticas públicas. Assim, neste escopo de pesquisa, definimos três aspectos prioritários que costumam frequentar as narrativas dos filmes de fronteira México/EUA, tendo o muro que divide os dois territórios como emblem das discussões. Trazemos ao debate algumas perspectivas que irão subsidiar a escolha destes três temas frequentes:

1) O trânsito dos indocumentados: A imagem de grupos de indocumentados atravessando clandestinamente as áridas terras do norte do México, enfrentando toda a sorte de riscos e desafios na passagem, desde os perigos oferecidos pelo narcotráfico, pelos coyotes, ou pela polícia de controle da fronteira, extremamente violenta, talvez seja a mais frequentes relacionada ao Muro México/EUA.

2) O narcotráfico: A constatação da forte presença do narcotráfico na economia e na vida cultural da fronteira abriu a perspectiva de concentrar atenção especial às várias dimensões das práticas simbólicas em torno do universo das drogas narcóticas presentes na vida cotidiana daqueles grupos sociais.

3) O estatuto do mexicano-americano: Neste deslocamento, a idéia de fronteira desliza de uma acepção limítrofe geopolítica para ampliar-se na experiência cultural e política dos mexicanos-americanos, a cultura chicana. No estatuto desse sujeito que cruzou a fronteira, mas que se mantem na ilegalidade como um cidadão de segunda categoria, sem direitos adquirios no novo país e ainda sentindo os efeitos do muro, reside uma serie de questões que nos interessam na proposta.
Bibliografia

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MIGNOLO, Walter. Habitar la frontera: sentir y pensar la descolonialidad (Antología, 1999-2014). CARBALLO, Francisco; ROBLES, Luis Alfonso Herrera (orgs.). Barcelona: CIDOB y UACJ, 2015.



QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (comp.) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas Latinoamericanas. CLACSO, Buenos Aires, Argentina. Julio de 2000. p. 246.