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  Título
A virada colonial do cinema latino-americano: Jauja, Zama e Vazante
Autor
Angela Freire Prysthon
Resumo Expandido
A partir de uma concepção da paisagem que a pensa como um primeiro encontro cognitivo com um lugar, pretendemos abordar especificamente as figurações paisagísticas da América tal como engendradas em três filmes recentes do cinema latino-americano: Jauja (Lisandro Alonso, 2014), Vazante (Daniela Thomas, 2017) e Zama (Lucrecia Martel, 2017). Nosso objetivo é compreender como cada um dos diretores processou a tradição cartográfica e topológica da América Latina e ver por essa perspectiva comparatista os diferentes modos de articulação do discurso colonial, enumerando, detalhando e analisando as diversas estratégias utilizadas nas malhas desses três filmes.

Uma de nossas preocupações concerne justamente o vínculo entre paisagem e poder. W. J. Mitchell (2002) alude a certa vocação imperialista da imagem paisagística, referindo-se principalmente à paisagem não apenas como um gênero pictórico, mas como uma formação histórica de tradição europeia. Evidentemente, cada um desses cineastas se apropriou (aderindo ou subvertendo) de modo distinto dessa formação histórica, ainda que os três tenham também muitas semelhanças (são filmes de “época”, aludem ao período colonial, tratam de questões territoriais). Sendo a paisagem a cristalização de um modo de olhar, de uma maneira de circunscrever um território e de estabelecer uma espécie de domínio sobre ele, propomos pensar as várias camadas de sentido das imagens de paisagem nos três filmes, desde escolhas composicionais, de enquadramentos audiovisuais, de referências e influências utilizadas, de superfícies materiais a questões geopolíticas, a miradas colonialistas e resistências pós-coloniais implícitas.

A hipótese inicial é que os três filmes, ainda que de maneiras absolutamente diversas, buscam realçar o papel dos espaços na criação de mundos imagéticos e que confirmam em muitas instâncias que a paisagem não é apenas uma representação pictórica do espaço, mas que incide diretamente nas formas de percepção e composição do espaço. No caso específico do nosso recorte, os mundos vislumbrados têm uma conexão direta com a história e suas texturas parecem compor espectros de uma topologia colonial, inspiradas por outras tradições pictóricas e literárias. Interessa-nos, então, detalhar e sofisticar em cada filme os elos entre mise en scène, geografia e história, trabalhando as diferenças e continuidades em cada filme de modo a estabelecer uma espécie de gramática tentativa do território e da história colonial latino-americanos no cinema contemporâneo.
Bibliografia

BRUNO, Giuliana. Atlas of Emotion. Londres: Verso, 2002.

HARPER, Graeme e RAYNER, Jonathan (orgs.). Cinema and Landscape. Bristol/Chicago: Intellect, 2010.

JACKSON, John Brinckerhoff. Discovering the Vernacular Landscape. New Haven: Yale University Press, 1984.

KEILLER, Patrick. The View From The Train. Cities & Other Landscapes. Londres: Verso, 2013. LEFEBVRE, Martin (org.). Landscape and Film. Londres: Verso, 2006.

MITCHELL, W. J. (org.), Landscape and Power. Chicago: The University of Chicago Press, 2002.