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  Título
O close-up e o homem reinventado: à procura do personagem de cinema
Autor
João Vitor Resende Leal
Resumo Expandido
Esta comunicação pretende investigar o primeiro período do cinema em busca de marcas do surgimento do personagem cinematográfico, isto é, marcas da passagem de um corpo humano filmado estritamente como parte de uma “vista” ou “atração” por um cinema então maravilhado pelas possibilidades de registro do movimento, em direção a um corpo humano reinventado como entidade ficcional por um cinema já mais interessado na contação de histórias. Argumentaremos que o personagem cinematográfico pode começar a ser apreendido fora do regime narrativo tradicional e antes mesmo do período de “integração narrativa” – período entre 1908 e 1914 que, segundo Gaudreault et Gunning (2006 [1986]), teria sido marcado pela domesticação das “atrações mostrativas” do primeiro cinema por estruturas narrativas tomadas de empréstimo ao romance burguês. Assim, filmes como "Rube and Mandy at Coney Island" (Edwin S. Porter, 1903) e "The widow and the only man" (Wallace McCutcheon, 1904), como os próprios títulos sugerem, parecem já revestir os corpos filmados de certa carga narrativa, apresentando personagens rudimentares: figuras bem delimitadas, recorrentes e facilmente reconhecíveis, ainda que desprovidas de particularidades marcantes ou de motivações claras. Buscaremos mostrar ainda que esse processo de “invenção” do personagem (correlato, talvez, a um processo de “descoberta” do jogo atoral no cinema) se dá através de diversas estratégias de enunciação e de figuração que tratam de destacar o corpo filmado e de tornar significativas suas aparições no decorrer do filme. Dentre essas estratégias, ressaltaremos o close-up do rosto – é em grande medida pela ênfase na imagem do rosto que se opera a singularização do personagem e que se busca suscitar, mais do que a atenção, a empatia do espectador; e é sobretudo quando o espectador antecipa e projeta, no personagem, uma identidade individual, que o personagem se torna apto a desempenhar plenamente as funções cada vez mais complexas que as narrativas passariam a lhe exigir. Tal articulação entre identidade e personagem, mediada pelo rosto em close-up, pode ser vista de modo emblemático nos filmes "Photographing a female crook" e "Subject for the Rogue’s Gallery" (A. E. Weed, 1904), nos quais uma mulher detida e prestes a ser fichada (fotografada) pela polícia tenta resistir ao ato fotográfico. Ou ainda, num percurso possível entre "Chapeaux à transformations" (Louis Lumière, 1895) e "Fantômas" (Louis Feuillade, 1913) e passando por vários filmes de Georges Méliès ("Un homme de têtes", 1898; "L’homme à la tête en caoutchouc", 1901; "Le roi du maquillage", 1904), é possível perceber como o rosto humano, submetido a metamorfoses e multiplicações, vem complicar a relação entre identidade e personagem. Desse modo, a passagem pelo primeiro cinema nos parece crucial para a compreensão das origens e da complexidade do personagem cinematográfico para além das órbitas da literatura e do teatro e às margens das considerações acerca do trabalho do ator.
Bibliografia

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