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  Título
Cinema e escritura: o caso da (auto)trapaça em Lars Von Trier
Autor
Maiara Mascarenhas
Resumo Expandido
Partindo das considerações de Barthes acerca da ideia de “língua”, este artigo objetiva mapear uma virada moral na obra de Lars Von Trier, procurando refletir sobre como, em seus filmes, relações entre cinema e "escritura" são capazes de tensionar questões morais demasiadamente complexas e caras às discussões de Barthes. Por isso, num movimento barthesiano de trapaça, apoiar-nos-emos nos seus conceitos de “escritura” e “morte do autor” com o intuito de analisar como as estratégias estéticas de Lars Von Trier, juntamente com a força política das protagonistas femininas de “Ninfomaníaca V. I" (2013), "Ninfomaníaca V. II” (2013), “Melancolia” (2011) e “Ondas do Destino” (1996), conseguem revelar uma inédita guinada desnormatizante em seu cinema.



Sabemos que o cineasta Lars Von Trier é famoso por angariar desafetos devido aos seus frequentes envolvimentos com polêmicas e comportamentos reacionários, sejam aqueles ligados ao nazismo, sejam aqueles que parecem revelar traços da sua misoginia. Por outro lado, sabemos também da importância da cinematografia deste realizador para a história, para a teoria e para a linguagem do cinema. Cinematografia esta que tanto nos desconcerta e nos faz repensar dados os temas não normativos sobre os quais Lars Von Trier trata em seus filmes; como ainda nos agracia e confunde com todo um jogo de linguagem apto a conduzir, a situações, de fato, extremas, a gramática cinematográfica.



Tão apocalíptico quanto Lars Von Trier, em 1977, um homem acabara de entrar no Colégio de França para tornar-se professor. Era Barthes que, em sua aula inaugural, confessava-se à plateia como um sujeito incerto que talvez nem devesse estar ali e “no qual cada atributo era imediatamente combatido pelo seu contrário” (BARTHES, 2004, p. 7). Além disso, Barthes seguia afirmando que as forças de liberdade, as quais existem somente naquilo que ele ali revelava ser a “literatura”, não dependiam da pessoa civil, do engajamento político ou ideológico do autor, mas do trabalho de deslocamento que se exercia sobre a “língua”. Desse ponto de vista, quando Barthes concluía que “Céline é tão importante quanto Hugo, Chateaubriand tanto quanto Zola” (IDEM, p. 17), estava fundada a “morte do autor”.



Ora, acreditamos que, num movimento barthesiano de (auto)trapaça, o uso criativo das “formas e substâncias de expressão e conteúdo” (Hmeljevski, 1975) no cinema de Lars Von Trier consegue esvaziar o "lugar do autor". Solapando, desta forma, a suposta ideologia misógina do cineasta, sobretudo, no momento em que deixa ver, por meio das atrizes e das personagens dos filmes que iremos analisar, mulheres de personalidades extremamente incomuns capazes de viver e nos fazer ouvir o insituável, o desconhecido, as projeções, as explosões, as vibrações, as maquinarias (BARTHES, 2004, p. 21), o lugar onde o saber é festa e no qual a moral não para de se criar e se transmudar.



Dentro da perspectiva barthesiana, também compreendemos que, juntamente com as guinadas de “conteúdo” provocadas por tais filmes de Lars Von Trier, é importante observar que a instabilidade do "lugar do autor" neste diretor ainda tensiona a normatividade da linguagem cinematográfica. É algo que fica extremamente perceptível dado o caráter tão híbrido do seu cinema. Nesse sentido, podemos dizer que Lars Von Trier está entre aqueles cineastas que, segundo Deleuze (2010), são "gagos em sua própria língua".



Entendemos que uma virada moral passa por uma guinada de “expressão” e de “conteúdo”. Portanto, partindo da contundente contribuição de Barthes para as reflexões acerca da “língua” e da “morte do autor”, pretendemos demonstrar, neste artigo, como implicações radicais das relações entre cinema e "escritura", presentes na obra de Lars Von Trier, podem desestabilizar não somente as teorias, a história e a linguagem do cinema, como também a genealogia da moral. Logo, serão base de nossa fundamentação teórica os livros “Aula” (Barthes, 2004) e “O rumor da língua" (Barthes, 1988).
Bibliografia

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 2004.



__________. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.



BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.



BOUTANG, André-Pierre. Abecedário de Deleuze. França, 1988-89. (Entrevista em vídeo).



DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 2010.



__________. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.



__________. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2009.



__________. Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 2016.



DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? São Paulo: Editora 34, 2013.



__________. Kafka: por uma literatura menor. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.



HMELJEVSKI, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1975.



NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Cia das Letras, 2007.



RANCIÈRE, Jacques. The emancipated spectator. Nova Iorque: Verso, 2009.