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  Título
No entre o pré e o pós-cinema: Comunidades cinéfilas em performance
Autor
Geovano Moreira Chaves
Resumo Expandido
Quando se reflete acerca do percurso histórico das práticas de projeções cinematográficas, um espaço importante pode ser reservado às comunidades cinéfilas organizadas em torno do movimento cineclubista. Responsáveis por formarem e moldarem uma espectatorialidade particular, intencionada a estudar e extrapolar o filme e seus significados para além da projeção, o cineclubismo fomenta interatividades e interpretações que muitas vezes trazem consigo concepções estéticas e ideológicas que visam a formação e o agenciamento de públicos específicos, principalmente, pela “eleição” de películas e cineastas conforme os anseios e os projetos dos envolvidos.

A inserção do cinema no espaço urbano, associada a sua consequente popularização, levou a formação de comunidades de interpretações fílmicas, que além da filia à estética e linguagens fílmicas, foram espaços de intensos debates e produções textuais sobre que tipo de cinema se deveria ver e cultuar, assim como elaborações do que seria o próprio cinema e tudo que ia além do filme, como definições de como arquitetar a crítica e deliberações sobre quais os destinos deveriam ser atribuídos as imagens projetadas.

Numa época em que o cinema não tinha a televisão como concorrente, onde as salas de cinema disputavam espaços privilegiados em locais centrais das grandes cidades brasileiras, os cineclubes tiveram o seu momento proeminente. Este foi o caso da cidade de Belo Horizonte de meados do século passado, onde comunidades de interpretações fílmicas desempenharam importante papel no que tange a difusão das teorias, escolas, linguagens e críticas cinematográficas que foram eleitas e/ou construídas pelos seus integrantes. Tal propagação se manifestava principalmente através das revistas produzidas por estes cineclubes que traziam o cinema associado a várias temáticas. Os objetivos dos colaboradores destas revistas variavam no sentido de se fazer ampliar os horizontes da linguagem, crítica e teorias do cinema ou na intenção de se introduzir posturas ideológicas ou moralizantes aos respectivos leitores. O direcionamento do olhar e a pretensão de se fazer difundir suas concepções de mundo são o que parece estar sutilmente contido nos belíssimos textos presentes nestas revistas que circularam de forma significativa no meio cinéfilo do período.

No entanto, acreditamos que para se compreender os modos pelos quais estes cineclubistas elegiam cinematografias com base em suas respectivas orientações estéticas e ideológicas, de modo a formarem públicos específicos de acordo com as representações e códigos de sociabilidade que permeavam estes espaços, faz-se necessário também compreender o processo de formação dos cineclubes belo-horizontinos, afim de possibilitar entendimentos sobre seus engajamentos no intuito de se obter uma visão mais geral da orientação dada às revistas então produzidas por estas comunidades de interpretações fílmicas.

Dois foram os cineclubes que se destacaram no período: O CEC (Centro de Estudos Cinematográficos), de orientação mais liberalizante e com vários integrantes filiados ao partido comunista (na época bem em voga), e o CCBH (Cine-Clube Belo Horizonte), este, resultado de um longínquo projeto de tentativa de moralização católica para o cinema.

O choque entre estas comunidades de interpretações fílmicas foi inevitável. Disputar a propriedade de se falar sobre cinema e tentar moldar seus espectadores e integrantes conforme suas orientações ideológicas e estéticas foi à tona do contexto.

Situados num espaço entre o que pode ser considerado pré-cinema e pós-cinema, estes cineclubes como espaços de atuação de comunidades de interpretações fílmicas marcaram uma época, movimentaram a dinâmica cinéfila e nos deixaram um legado que muito pode nos dizer sobre a nossa forma de pensar o cinema, ou mesmo de eleger o que consideramos cinema.
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