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  Título
O ator experimental no cinema
Autor
Pedro Maciel Guimaraes Junior
Coautor
Sandro de Oliveira
Resumo Expandido
Este trabalho traça as linhas de força do jogo experimental do ator numa plêiade de filmes tão numerosos quanto diversos, indo do cinema clássico e modernos, até as obras mais vanguardistas do cinema europeu do início do século (expressionista, formalista, impressionista), o cinema experimental americano até os “novos cinemas” da América do Norte pós anos 1960, dos cinemas “novos” brasileiro, alemão, japonês, entre outros, até os cinemas verdadeiramente experimentais e marginais.

As figurações experimentais do ator no cinema questionam o centro limitador e codificado da atuação clássica, indo em direção a um campo ainda pouco vislumbrado dos procedimentos mais excessivos, ora em uma rarefação de gestos e expressões faciais, ora pela exasperação e pelo paroxismo das figurações de sentimentos como a agonia, a histeria, o isolamento, com personagens esvaziados ou com psicologia dentro de um estado ainda em construção: personagens em crise!

Sua ética é a de sacudir a relação entre espectador e cinema de espetáculo composta, muitas vezes, de passividade, ao rechaçar um envolvimento pessoal e afetivo com o espectador, instalando o choque, o estranhamento, a náusea e a repulsa, escapando desta urgência de doar sentido ao personagem, substituindo a identificação sensória por táticas de distanciamento; ou ainda, entupindo sua atuação de tantos signos, que a sobrecarrega ao ponto de não mais significar.

O experimental é uma alternativa aos gêneros estratificados e fortalecidos pela indústria, questionando seu campo de trabalho assentado e inerte de módulos encapsulados (os psicologismos dos personagens, os procedimentos codificados pelo “gosto comum”, os trâmites do ator que se prende a uma personagem pré-arquitetada). O jogo experimental atoral transborda, assim, os limites estabelecidos por regras restritivas de módulos cinematográficos mais afeitos ao mercado consumidor, ultrapassando fronteiras circunscritas por códigos deveras opressores, códigos estes que cerceiam os campos de liberdade expressiva e de repertório de gestos, posturas e ações do ator. Sua atitude instaura uma visão - que se revela inovadora - de todo um arcabouço de representação que historicamente se amalgamou ao trabalho do ator no cinema e que – dentro da nova ordem ética do ator experimental -, envelheceu, perdeu seu frescor pela repetição ad nauseum, pela falta do oxigênio da criação.

Portanto, num procedimento que se apresenta como inaugural sobre o ator experimental, propõem-se aqui linhas de força construtivas que regem a atuação experimental no cinema, ora lidando mais proximamente com a relação do ator com a “instituição cinema” ou com o “objeto-filme”, ora delineando uma taxionomia de suas figurações nesses filmes. Em linhas gerais, o modus operandi do ator experimental segue uma tendência em apresentar um trabalho ainda em estado de feitura, onde o processo é mais importante do que a apresentação de um produto finalizado. Sobre este “ato em processo”, Dixon (2010) explica que o filme experimental se preocupa com que os atores tragam o que há de espontâneo e real neles mesmos - em vez de um vasto número de habilidades miméticas e artificiais, principalmente ligadas a um papel. Há uma conexão mais genuína com o real (no sentido de procedimento mais pessoal e intensamente individual), uma valorização da atuação com elementos de riscos e espontaneidade.

Ao contrário do trabalho de Nicole Brenez (2015) - que investiga a atuação experimental em um campo mais afeito aos ativismos políticos dos atores e atrizes que apresentam uma rebeldia em relação ao cinema industrial afeito a uma padronização estética no que tange os processos de identificação e alienação -, o jogo atoral que ora se investiga tem a ver com propostas e diálogos com outras vertentes artísticas (pintura, literatura, teatro, performance art, fotografia) e com a produção cinematográfica de vanguarda e sua relação sempre questionadora com os módulos clássicos de atuação.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Notes sur le geste. 1991.

BARTHES, Roland. O mito do ator possuído. In: ---------. Escritos sobre teatro (1ª. Ed.). 2007.

BRENEZ, Nicole. Are we the actor of our own life? Notes on the experimental actor. 2015.

__________. Cinémas d’avant-garde. 2006.

__________. De la figura en général e du corps en particulier – L’invention figurative au cinema. 1998.

DAMOUR, Christophe. Al Pacino – Le dernier tragédien. 2009.

¬¬¬¬__________. Jeu d’acteurs: corps et gestes au cinema. 2016.

DIXON, Wheeler W. Beyond characterization – Performance in 1960s experimental cinema. Screening the past, 2010.

FARCY, Gérard-Denis; PRÉDAL, René (Dir.). Brûler les planches, Crever l’écran – La présence de l’acteur. 2001.

NAREMORE, James. Acting in the cinema. Bloomington : Univ. of Indiana, 1988.

__________. Film acting and the arts of imitation. Revista Cycnos, 2011.

NOGUEZ, Dominique. Éloge du cinema expérimental. 2010.

SITNEY, P. Adams. Visionary film – The American avant-garde. 1979.