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  Título
Cinema indígena: transbordamentos estéticos e políticos
Autor
GILSON MORAES DA COSTA
Resumo Expandido
Nas últimas décadas os modelos de comunicação passaram por mudanças significativas, com isso a popularização e acesso a novos mecanismos de comunicabilidade possibilitaram que um crescente número de indivíduos e coletivos pudessem obter informações suficientes para o reconhecimento dos seus direitos, assim como produzir, trocar e disseminar conteúdos. Neste cenário, as produções audiovisuais que, até meados da década de 1970, eram majoritariamente realizadas por grandes agentes e instituições (emissoras estatais e privadas, estúdios de cinema e grandes produtoras), passam a ganhar espaço nos meios alternativos e populares, principalmente após o advento da tecnologia de produção digital – que além de facilitar a operacionalização dos equipamentos, também tornou o custo de produção mais acessível.

Para os povos indígenas, a apropriação dos meios de comunicação, sobretudo os da produção audiovisual, emerge como mecanismo chave para a preservação da memória coletiva e autodeterminação. Na luta por reconhecimento e pela defesa dos direitos indígenas, lideranças de diferentes etnias agem, estrategicamente, no sentido de tornar o audiovisual um dispositivo central da afirmação cultural dos povos indígenas, propiciando a emergência de um cinema descolonial que apresenta suas singularidades no “campo” [domínio da imagem] e no “ante-campo” [domínio das estratégias de produção]. Nesta comunicação, temos o interesse de apresentar uma interpretação sobre o percurso, o fortalecimento e a consolidação da produção audiovisual por realizadores e coletivos indígenas no contexto do Brasil contemporâneo, defendendo seu atravessamento militante que crava linhas de fuga e subverte a ordem estética e política do cinema moderno. Interessa-nos ainda, em um segundo momento, apresentar o relato de uma experiência de produção audiovisual realizada em parceria com o Povo Xavante, no cerrado Mato-grossense.

Para produzir uma cartografia sobre o cinema indígena enquanto dispositivo político na afirmação da identidade étnica do povo Xavante, e consequentemente, como instrumento de luta dos povos indígenas, farei foco na produção fílmica de realizadores da etnia Xavante, em especial os trabalhos dirigidos e/ou corroborados pelos cineastas Divino Tserewahú e Caimi Waiassé. Identifico nestas produções um cinema que transborda a constituição mesma da imagem, cuja representação simbólica e política está além dos limites do quadro fílmico. Concordando com Tuner (1993) as narrativas fílmicas protagonizadas por realizadores indígenas indicam que os mesmos estão interessados no aperfeiçoamento de um novo meio de representação e o usam como meio para afetar e transformar sua cultura e a concepção que têm de si mesmo. Considerando o estudo preliminar das narrativas audiovisuais agrupadas para esta pesquisa, é possível ponderar que o olhar construído com a câmera pelos cineastas Xavante assume singularidade e produz uma estética própria que escapa à normalização do regime de verdade documental moderno, proporcionando “um horizonte de apresentações diversas do índio com base em seus próprios pontos de vista, sem que deles sejam cobrados aspectos essenciais de suas tradições, pois agora o índio vem se apresentando à história de uma perspectiva existencialista em oposição ao lugar essencialista e naturalista até então imposto a ele” (NUNES et alii, 2014, 198).
Bibliografia

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