Voltar para a lista
 
  Título
A micropolítica dos gestos e afetos em “Las Acacias”
Autor
Mariana Dias Miranda
Resumo Expandido
O Nuevo Cine Argentino é marcado especificamente por um rompimento estético em relação

ao cinema político dos anos 1960 e filmes de memória dos anos 1980. Nesse sentido, é identificada

constantemente a ausência de um projeto político declarado e de um imperativo identitário que

busca diagnosticar problemas nacionais e apresentar suas soluções (AGUILAR, 2008). Há, dessa

forma, a exploração do presente através de narrativas ambíguas, rarefeitas e que investem na

dimensão do corpo e do sensório como maneira de privilegiar indivíduos em constante

entrecruzamento, colocando em foco um dinamismo de identidades diversas em simultaneidade e

tensão.



Nesse contexto, o filme Las Acacias (Pablo Giorgelli – Argentina – 2011) esbarra com o

tema da imigração no interior da América Latina e, ao trabalhar com uma narrativa mínima,

principalmente com poucos diálogos, traz a tona a dimensão do corpo e dos gestos dos personagens

como chave de leitura da obra, fazendo com que os aspectos sensíveis e materiais sejam centrais, ao

invés de signos racionais e linguísticos. É no corpo que a negociação entre os personagens

principais da obra acontece, enfatizado por uma mise-en-scène que se constrói também enquanto

corpo e que cria uma porosidade entre os planos e enquadramentos.



Entende-se o conceito de afeto como a instauração de um evento dinâmico que

desterritorializa e desloca elementos de seus lugares preconcebidos, ou seja, enquanto algo que

emerge em meio ao tecido narrativo e suspende a dimensão estruturada dos significados. Dessa

forma, partindo do pensamento de Elena Del Rio (2008), do afeto enquanto “poderes do corpo” em

sua propriedade criativa e ontogênica, este trabalho propõe associá-lo com a definição de

“economia afetiva” em Sara Ahmed (2004), a qual define a circulação de objetos saturados de afeto

como o que dá forma as tensões sociais. Coloca-se como hipótese, portanto, o conceito como um

instrumento de análise eficaz para a leitura de um modo micropolítico presente nesse cinema.



Ao se definir o potencial de disrupção de uma micropolítica dos afetos e sua propriedade

criativa, propõe-se uma associação com a filosofia de Jacques Ranciére (2014), principalmente

através da união entre estética e política colocada como um modo distribuição do sensível. Com

isso, seria possível uma relação entre a figura do “dissenso” apontada pelo autor como algo que

instaura uma ruptura que desafixa os sujeitos de seus lugares, sendo desse modo, potência de

criação de novas formas de pensar e de fazer.



Inserindo Las Acacias no contexto de um cinema que passa de uma escala macro para

micro, pretende-se com esta comunicação, pensá-lo dentro de um momento de “política do

sensível” (DI PAOLA, 2010), na qual o aparato cinematográfico não busca apenas retratar o

diagnóstico de uma realidade externa, mas também o potencial de criação em si de outros mundos e

imagens. Portanto, pensando uma mise-en-scène enquanto expressão do entrecruzamento e colisão

entre diferentes corpos.



Propõe-se com essas associações, a aproximação com um modo de “pensar junto”, como

apontado por Susanna Paasonen (2011) em relação as trincheiras teóricas da virada afetiva. Ao se

colocar em conjunto diferentes perspectivas em torno do conceito de afeto e, através disso, articular

essas abordagens no que têm de comum enquanto possibilidade de se pensar uma retórica da ação

do corpo como criação política no cinema contemporâneo.
Bibliografia

AGUILAR, Gonzalo. Other Worlds: New Argentine Film. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2008.

AHMED, Sara. The Cultural Politics of Emotion. Nova Iorque: Routledge, 2004.

DEL RÍO, Elena. Deleuze and the cinemas of performance. Powers of affection. Edinburg:

EdinburgUniversity Press, 2008.

DIPAOLA, Esteban. Las formas políticas del cine argentino: montajes, disrupciones y estéticas de una

tradición. Aisthesis, Santiago, v. 1, n. 48, p.128-140, set. 2010.

MASSUMI, Brian. Politics of affect. Cambridge: Polity Press, 2015.

OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. A mise en scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas:

Papirus, 2013.

PAASONEN, Susanna. Carnal Resonance: Affect and Online Pornography. 1a. ed. MIT Press, 2011.

PODALSKY, Laura. The Politics of Affect and Emotion in Contemporary Latin American Cinema:

Argentina, Brazil, Cuba, and Mexico. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2011.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF; Martins Fontes, 2014.