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  Título
Um lugar não tão silencioso: mecanismos de domesticação da plateia
Autor
José Cláudio Siqueira Castanheira
Resumo Expandido
Em cena do filme de René Clair, "Le Silence est d’Or" (1947), a sala de projeção é representada como um conjunto um tanto caótico de acontecimentos acompanhando a imagem em movimento. Um narrador explica as ações dos personagens, bem como os personifica, dando suas falas. Uma pianista toca uma música animada, independente do que se desenrola na tela. Ela também pouco se abala quando um rasgo na cobertura da sala deixa entrar algumas gotas de chuva. Um operador, bem atrás da plateia, produz um barulho considerável ao rodar a manivela do seu projetor. Como se não bastasse essa cacofonia em clara competição com o filme projetado, o personagem principal, sorrindo maliciosamente para uma dama sentada ao seu lado, abre o guarda-chuva – dentro da sala de projeção – para que ela não se molhe. Do lado de fora, um senhor anunciava, ruidosamente, as maravilhas da invenção do século: o cinematógrafo.

O filme traz algumas das memórias do diretor sobre como se fazia e se assistia filmes na primeira década do século XX. O espaço exterior misturava-se com o interior da sala de projeção – fosse através de anúncios gritados, fosse por meio de mecanismos sonoros mecânicos, como gramofones, pianolas etc. Esses sons eram ouvidos do lado de dentro e compunham um espaço específico de fruição que se identificava com outras atrações de feiras e teatros de variedades. O caos sonoro e visual fazia parte da experiência fílmica nesse momento.

O cinema atravessou diferentes fases de sedimentação de práticas e comportamentos específicos dentro da sala de cinema. Esses comportamentos, da mesma forma, não eram exclusivos da projeção de imagens em movimento. A educação do público dá-se através do confronto entre antigos hábitos e aquelas atividades surgidas a partir da urbanização crescente da modernidade. Simmel (1987), Benjamin (1994) e Kracauer (2009) vão tratar não apenas das modificações sociais ocorridas na passagem entre os séculos XIX e XX, mas também das mudanças cognitivas necessárias para adaptar-se a essa nova realidade. Singer (2004) trabalha com uma concepção “neurológica” da modernidade. O treinamento cognitivo e comportamental do público moderno se dá através de concertos, espetáculos teatrais e, especialmente, filmes. Estes exigem, cada vez mais, um nível de concentração e de respeito a determinadas regras de convivência dentro do espaço de exibição. Ao longo das décadas, diferentes modelos tecnológicos trabalharam com a ideia de imersão profunda em um espaço ficcional a partir do apagamento do espaço da sala de cinema. Grandes telas, projeção em 3D, arquitetura grandiosa e confortável são algumas das ferramentas utilizadas para esse efeito. Contudo, o silêncio se revela como principal estratégia de sobreposição de um espaço sobre o outro. Silenciando-se alto-falantes (CHION, 2009), silenciando-se o exterior e, principalmente, silenciando-se o espectador o filme trabalha eficientemente a suspensão da descrença.

Este trabalho propõe um olhar mais detalhado sobre determinadas práticas de silenciamento da sala de cinema a partir de questões tecnológicas e de reconfigurações sociais. Entendemos, por outro lado, que tal silêncio – de espectadores e de tecnologias – produz um efeito autorreflexivo na plateia, chamando atenção para a sua própria subjetividade mediando uma experiência imersiva, porém de forma consciente. O recém lançado filme “Um Lugar Silencioso” (KRASINSKY, 2018) é um exemplo desse processo de autoconsciência em meio a limites esgarçados de realidade. Por fim, sugerimos que a sofisticação de mecanismos de som e imagem, ao produzir tensões percepto-cognitivas, estimula uma percepção háptica, experimentando “detalhes” e nos afastando do caráter narrativo dos filmes (MARKS, 2002). O espectador não pode ser visto como apenas um elemento passivo, mas como parte de uma relação volitiva entre dois corpos: o seu próprio e o corpo do filme (SOBCHACK, 1992).
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura (Obras escolhidas, vol. I). São Paulo: Brasiliense, 1994.



CHION, Michel. Film, a sound art. New York: Columbia University Press, 2009.



KRACAUER, Siegfried. O ornamento da massa. São Paulo: Cosac Naify, 2009.



MARKS, Laura. Touch: Sensuous theory and multisensory media. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2002.



SINGER, Ben. Modernidade, hiperestímulo e o início do sensacionalismo popular. In CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa R. (Org.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p. 95-123



SIMMEL, Georg. A metrópole a a vida mental. In: VELHO, Otávio G. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1987, p. 11-25.



SOBCHACK, Vivian. The adress of the eye: a phenomenology of film experience. Princeton: Princeton University Press, 1992.