Voltar para a lista
 
  Título
Uma imagem política: o cinema de Andrea Tonacci entre eu e o outro
Autor
Laís Ferreira Oliveira
Resumo Expandido
Neste trabalho, aproxima-nos da filmografia do diretor Andrea Tonacci, tentando compreendê-la como uma inscrição política sustentada pela radicalidade da diferença e por uma abordagem distinta da história. Podemos destacar três gestos fundamentais em sua filmografia: o encontro com o mundo do outro, a investigação da história, e o uso de imagens de arquivos. No primeiro caso, destacamos as obras Serras da desordem, Conversas no Maranhão e os Arara, em que as imagens de contato baseadas na opacidade e na impossibilidade de compreensão total do mundo do outro constroem movimentos de alteridade que as instituições públicas e autoridades não adotaram na demarcação das terras indígenas. No segundo caso, destacamos a desconfiança com os discursos oficiais e midiático, presentes em Olho por olho, Bla bla bla e Serras da desordem. No terceiro, podemos compreender a montagem por aproximação de eventos de períodos cronológicos distintos, a fim de apontar repetições e permanências de opressões na história brasileira.

Ao refletir sobre o tempo no cinema, em As teorias dos Cineastas, Jacques Aumont afirma: “o cinema sugere um mundo diferente do mundo fenomenal e mesmo do mundo real - a menos que sugira que o mundo real não é o que acreditamos - porque desconecta o espaço de seu tempo-suporte” (Aumont, 2002 : 37). Dessa maneira, a linguagem cinematográfica inscreve uma nova percepção sensível da realidade. No campo da política, o cinema estaria apto a recodificar os lugares da diferença, da alteridade e da construção de uma narrativa da história, na medida em que poderia propor convivências e organização de imagens de arquivo de maneira em que a narrativa geral não o fez. Entendemos o conceito de política a partir de Hannah Arendt, segundo a qual a ideia de coisa política seria idêntica à ideia de liberdade, basear-se-ia na pluralidade dos homens e na convivência com os diferentes, organizando, de antemão, “as diversidades absolutas de acordo com uma igualdade relativa e em contrapartida às diferenças relativas”(ARENDT, 2018, p. 24). Pensada dessa forma, a política diferenciar-se-ia da história, na medida em que “o moderno conceito de História substitui um conceito de política qualquer que seja a sua natureza; acontecimentos políticos e agir político são diluídos no acontecer histórico e a História é compreendida, no sentido mais textural. como um fluxo da história”(ARENDT, 2018, P.52). Podemos, também, pensar que a política, como o cinema, estabeleceria um processo de suspensão da realidade. Como aponta Aumont, “O cinema inventa imagens da realidade, seja para exprimir arealidade, seja para negá-la e afirmar-se em seu lugar. Mas ‘entre’ a imagem de filme fabricada e pensada e a realidade, há o visível e o visual. É nessa “zona” vaga que os cineastas trabalham, cultivando a arte de ver e de contemplar (AUMONT, 2002, p.80). Assim, os filmes de Tonacci tornar-se-iam um agir político na medida em que mobilizam os fatos e personagens de uma história em um sentido de assumir a diversidade de suas diferenças e acolhê-las em função de outra convivência comum. Para Arendt, o entendimento da política se baseia na possibilidade de identificação do objetivo, meta, sentido e convicção na vida comum pública. A partir desses elementos, no contato com a obra de Tonacci, percebemos que o filmes se contrapõe às imagens de violência ou ao funcionamento de uma guerra, em que a denúncia ou o combate para conseguir a paz sacrificam as metas e objetivos, em que não há paz, mas sofrimento e imagens massacrastes e de alta exibição da dor dos outros.
Bibliografia

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária , 2007.



ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo : Companhia das Letras, 2012.



ARENDT, Hannah. O que é política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2018.



AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas, São Paulo: Papirus, 2002.



CASTRO, Eduardo Viveiros de. A Inconstância da Alma Selvagem e Outros Ensaios

de Antropologia. São Paulo: Cosac & Naif,y. 2002.



CLIFFORD, James. Sobre a autoridade etnográfica. In: A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro. Editora UFRJ, 1998.



COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: A inocência perdida, cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. Rio de Janeiro: Livraria Cultura, 2000. 256p.



RAMOS, Fernão Pessoa. Cinema marginal (1968 – 1973): A representação em seu limite. São Paulo: Editora brasiliense, 1987.