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  Título
Baixada filma - a periferia, da representação à autoapresentação
Autor
Liliane Leroux
Resumo Expandido
No início do século XXI, o desenvolvimento e a difusão de uma tecnologia de produção de imagem de baixo custo e fácil manipulação possibilitou a multiplicação de iniciativas que fizeram da expressão cinematográfica o meio de sua ação social. Ao promoverem junto a um público composto majoritariamente de jovens das classes populares não somente o acesso aos novos meios técnicos, mas o interesse por fazer cinema, ao lado de uma educação informal e adaptada a esses objetivos, essas novas iniciativas de “dar autoria” pareciam pretender retomar, retificando-os, os rumos do “cinema social”, fornecendo alguma autonomia de expressão aos participantes. No Rio de Janeiro, podemos citar como exemplos deste momento o Nós do Morro, a CUFA, o Nós do Cinema, entre outros. Se por um lado essas experiências modificaram a relação até então firmada entre o cinema e a pobreza, - pois ao invés de buscar apenas retratar e expor a exclusão, contribuíram para que aqueles que até ali permaneciam excluídos de formas mais sofisticadas de expressão cultural pudessem ter, eles também, direito ao posto narrativo -, ainda assim é preciso destacar que essa nova aventura de propagação do cinema ocorre nos moldes de “projeto social”. O formato “projeto social”, aliado à necessidade de atender a editais de financiamento para garantir suas atividades, acabou por responder a um outro tipo de exigência: a demanda por um certo “civismo de resultados”. Esse caminho cedo assume, em maior ou menor grau, a conhecida forma da arte reduzida a ferramenta para conscientização das classes populares, através da construção pedagogizada da experiência artística pela imposição de um corolário temático e estético. Isso ressalta a dificuldade que sempre existiu por parte da sociedade em supor – ainda hoje - o lugar desses sujeitos (os cineastas das periferias e favelas) em uma posição que sempre foi reservada à elite: a do artista. Ou, ao menos, uma impossibilidade em supô-la possível sem necessitar da autorização ou tutela de uma vanguarda política, intelectual e artística. Na contramão deste cenário, as pesquisas de campo que realizo mostram como os cineastas das Baixada Fluminense, periferia do Rio de Janeiro, vêm constituindo e conquistando modos e espaços próprios de criação estética, formação, produção e exibição, de forma totalmente independente sem nenhum suporte ou apoio. Neste encontro, pretendo analisar a situação específica do movimento e manifesto “Baixada Filma”, lançado no início de 2018, e pontuar seu afastamento estético e político não apenas dessas iniciativas institucionais de ONGs, mas também de outras ações que podemos situar dentro do fenômeno mais conhecido da “periferia orgulho”, surgido para contestar séculos de uma periferia estigmatizada, mas no qual o que ocorre é uma afirmação de si no lugar mesmo onde sempre se esteve: da periferia, do pobre, do favelado. No caso do “Baixada Filma”, ao contrário, o que parece estar presente é um fenômeno novo, que diz respeito a uma experiência incerta de transição entre dois (ou mais) mundos, com a qual temos muito o que aprender.
Bibliografia

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