Voltar para a lista
 
  Título
O cinema de Evaldo Mocarzel sob a ótica da teoria dos cineastas
Autor
Tatiana Vieira Lucinda
Resumo Expandido
A teoria dos cineastas é uma metodologia que busca entender os processos criativos dos cineastas enquanto modos de pensamento. Seu ângulo de interpretação vai além da análise fílmica, compreendendo também as formas de criação artística, os depoimentos dados pelos cineastas em entrevistas, textos produzidos sobre cinema, dentre outros critérios que oferecem uma visão ampla sobre o que o cineasta entende por cinema, tornando-o, assim, um teórico. Segundo Stam (2003), essa teoria pode ser utilizada como uma forma de explicar a arte cinematográfica em várias dimensões, como a estética, social ou psicológica. Trata-se de uma reflexão geral dessa modalidade de arte, ou seja, a preocupação é com o macro e não com a observação de uma obra em específico, exercício comum às análises fílmicas.



Tomando tal abordagem metodológica como referência, este artigo analisa o processo criativo e a poética fílmica do documentarista brasileiro Evaldo Mocarzel, observando, especialmente através de sua trilogia da margem - À margem da imagem, Á margem do concreto e À margem do lixo, obras produzidas entre 2003 e 2008 – o que o cineasta entende por cinema, o que toma como matéria-prima de seu trabalho, quais seus métodos e técnicas, formas e modelos empregados, sua relação com as obras, como vê a função do cinema, suas linhas de influência e seu pensamento geral em torno da arte cinematográfica. Para tanto, são utilizados como referenciais teóricos centrais Andrew (1989), Aumont (2004) e Stam (2003), os quais propõem uma série de questões sobre o pensamento e atuação do cineasta a serem respondidas, além de textos e trabalhos de estudiosos do documentário nacional.



No que tange especificamente ao cinema documentário, essa metodologia de análise é interessante sob diversos ângulos: primeiramente, porque há uma crença equivocada e bastante disseminada no senso comum de que o documentário seria uma imitação da realidade, uma captação dos movimentos do mundo sem mediação (NICHOLS, 2012), o que reduz a força autoral e o esforço criativo empregado em todo o processo, desde a pré-filmagem até a montagem; em segundo lugar, porque é fundamental entender o documentário não apenas como um registro de algo que aconteceu, mas como uma narrativa construída, uma retórica elaborada pelo documentarista (SALLES, 2005), cuja atuação influencia sobremaneira no resultado da obra filmada. Desse modo, a Teoria dos Cineastas, ao ser empregada no campo do documentário, contribui para tornar clara a atuação do documentarista na realidade filmada, na medida em que revela que o realizador tem um pensamento cinematográfico que permeia toda a sua produção, suas escolhas e decisões.



Ao tomar como objetos de estudo não somente os filmes da trilogia da margem, como também entrevistas concedidas por Mocarzel e registros de cursos por ele ministrados, foi possível entender suas reflexões teóricas sobre a modalidade de cinema em que atua. Em linhas gerais, constatou-se que o cineasta vê a obra documental como a possibilidade de trazer um novo olhar ao espectador, visão esta diferente das versões midiáticas tradicionais. Por se tratar de uma abordagem que permite a escuta prolongada, o exercício da alteridade e uma maior transparência através da intervenção do documentarista - e a posterior exposição dessa intervenção ao espectador, Mocarzel credita ao documentário a potência de ruptura das visões estigmatizantes e de problematização da estetização da miséria. O documentarista demonstra concordar com a ideia de Comolli (2008) de que o documentário é capaz de produzir fraturas na roteirização midiática, abrindo brechas para que o real se manifeste. Seus filmes mostram o cinema como espaço de resistência, contudo, Mocarzel deixa claro que se trata de um ponto de vista, reconhecendo sua relação direta com os filmes. A relação com os personagens é de escuta, abertura para atender suas demandas, ao passo que concebe o espectador como agente de mudança.
Bibliografia

ANDREW, J. D. As principais teorias do cinema: uma introdução. Trad. Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. p.16-18.



AUMONT, J. As teorias dos cineastas. 2.ed. Campinas, SP: Papirus, 2004.



COMOLLI, J.L. Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão e documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



NICHOLS, B. Introdução do documentário. 5.ed. Campinas, SP: Papirus, 2012.



SALLES, J.M. A dificuldade do documentário. In: MARTINS, J. Souza; ECKERT, C.; NOVAES, S. C. (orgs.). O imaginário e o poético nas ciências sociais. Bauru, SP: EDUSC, 2005, p. 57-71.



STAM, R. Introdução à teoria do cinema. Trad. Fernando Mascarello. Campinas, SP: Papirus, 2003.