Voltar para a lista
 
  Título
O som do cinema não ficcional mudo
Autor
Renan Paiva Chaves
Resumo Expandido
Durante as décadas de 1910 e 1920, relevantes manuais e antologias de acompanhamento musical dedicaram trechos e seções inteiras ao filme não ficcional. A partir dos anos 1920, cue sheets, partituras e indicações sonoras – compostas pelos grupos exibidores, por produtoras de partituras e pela equipe realizadora do filme – passaram também a ocupar relevante espaço no campo do acompanhamento da não ficção. Do ponto de vista da proficuidade, pode-se dizer que esses materiais são as fontes primárias mais reveladoras da história do som do cinema não ficcional do período mudo. Embora não se saiba o que de fato era tocado nas salas de exibição (ou se sequer era tocado) a partir dessas fontes, elas nos revelam aspectos-chave dos estilos e das epistemologias que envolviam o acompanhamento sonoro do filme não ficcional e, em última instância, de como era (ou como gostariam que fosse) o som do filme não ficcional do período mudo.

Nessa apresentação pretendo abordar alguns aspectos estilísticos do acompanhamento sonoro do filme não ficcional que se fizeram presentes nas décadas de 1910 e 1920 – como repertório tocado, estrutura narrativa/temporal da composição/compilação, sugestões/guias presentes nos manuais, organização do material para o músico, andamentos musicais, formação musical e colaboração entre as partes da equipe realizadora. Em termos gerais, esses aspectos variaram, em grande medida, conforme a relação estabelecida entre o sonoro e o visual a partir do ponto de vista da realização fílmica. Grosso modo se pode dizer que a relação podia ocorrer num desprendimento completo do filme com seu acompanhamento, num extremo, e por uma concepção que encara o filme não ficcional como uma obra sonoro-visual una, em outro extremo. No meio termo estariam os filmes que, embora não tenham sido concebidos como obra sonoro-visual, receberam para suas exibições compilações, indicações sonoras e/ou composições específicas, dedicadas a eles.

Os resultados a serem apresentados foram construídos a partir da análise de fontes primárias coletadas majoritariamente na Deutsche Kinemathek – Museum für Film und Fernsehen, EYE Filmmuseum, New York Public Library e Library of Congress.

Os principais manuais e antologias de acompanhamento usadas são: What and how to play for pictures, de Eugene Ahern (1913); Sam Fox moving picture music II, de John Stepan Zamecnik (1913); Playing to the pictures, de W. Tyacke George (1914); Musical accompaniment of moving pictures, de Edith Lang e George West (1920); Musical presentation of motion pictures, George Beynon (1921); Motion Picture Synchrony, de Ernst Luz (1925); Encyclopedia of music for pictures, de, Ernö Rapée (1925); How to play the cinema organ, de George Tootell (1927).

As principais cue sheets, partituras e indicações sonoras usadas são: partitura de Max Butting para Lichtspiel opus I (1921, Whalter Ruttmann), cue sheet de Ernst Luz (1922) para Nanook of the North (1922, de Robert Flaherty); cue sheet de James C. Bradford (1922) para Nanook of the North (1922, de Robert Flaherty); partitura de George Antheil (1924) para Ballet mécanique (1924, ‎Fernand Léger); cue sheet de James C. Bradford (1922) para Moana (1925, de Robert Flaherty); partitura de Yves de la Casinière (1926) para Rien que les heures (1926, Alberto Cavalcanti); partitura para pianola de Jean Grémillon para Un tour au large (1926, Jean Grémillon); partitura reduzida de Edmund Meisel (1927) para Berlim: sinfonia de uma metrópole (1927, Whalter Ruttmann); partitura de Hanns Eisler (1927) para Opus III (1924, Whalter Ruttmann); partituras de Darius Milhaud (1928) para A l’exposition de la presse, Aviateurs reçus officiellement, Kangourou boxeur, Application industrielle de l'eau, Un attentat sur la voie ferrée e Le Derby; instruções sonoras de Dziga Vertov para O homem com a câmera (1929, Dziga Vertov).
Bibliografia

BIRDSALL, C. Resounding city films: Vertov, Ruttmann and early experiments with documentary sound aesthetics. In: ROGERS, H. (Ed.) Music and Sound in Documentary Film. Routledge, 2014. p. 34-54.

CARRASCO, C.; CHAVES, R. O pensamento sonoro-visual de Walter Ruttmann e a música de Berlim: sinfonia de uma metrópole (1927). DOC On-line, n. 12, p. 22-58, 2012.

CHAVES, R. O som no documentário: a trilha sonora e suas transformações nos principais movimentos e momentos da tradição documentária, dos anos 1920 aos 1960. Dissertação (Mestrado em Multimeios)–Unicamp, Campinas, 2015.

DEAVILLE, J. Sounding the World: the role of music and sound in early ‘talking’ newsreels. In: ROGERS, H. (Ed.). Music and Sound in Documentary Film. Routledge, 2014. p. 55-69.

FLAHERTY, R. The Campaign Book for Exhibitors. Studies in Visual Communication, v. 6, n. 2, p. 61-76, 1980.

MCCARTY, C. Film composers in America: A filmography, 1911-1970. Oxford University Press on Demand, 2000.