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  Título
Fazer ver, fazer cidade: o reemprego como desvio e invenção
Autor
Aline Bittencourt Portugal
Coautor
Érico Oliveira de Araújo Lima
Resumo Expandido
A partir de um estudo das operações de quatro filmes brasileiros recentes, gostaríamos de propor táticas de reemprego crítico tanto de materiais alheios – todos associados aos poderes de gestão da vida social – quanto das racionalidades visuais a eles acopladas. São obras que permitem pensar a participação de um conjunto de visualidades nos projetos que o Estado e o Capital buscam implantar na vida social, especialmente nos contextos urbanos. Com o manejo crítico dessas lógicas visuais, os filmes atuam como gestos que acionam proposições de cidades outras, colocando o visual e o social em disputa. Vamos cartografar as escrituras de quatro curtas-metragens: Nunca é noite no mapa (2016), de Ernesto de Carvalho, Entretempos (2015), de Frederico Benevides e Yuri Firmeza, O Porto (2013), de Clarissa Campolina, Julia de Simone, Luiz Pretti e Ricardo Pretti, e Europa (2011), de Leonardo Mouramateus.

Três desses filmes lidam com a apropriação de materialidades atreladas a tecnologias visuais de controle e de ordenação das cidades. Nunca é noite no mapa se utiliza das imagens que as viaturas do Google Street View capturam das cidades e produz a partir delas um pequeno ensaio teórico-crítico a respeito da própria natureza de articulação entre as viaturas do mapa e as viaturas de uma cidade concebida a partir da vigilância e dos interesses econômicos. Entretempos e O Porto incorporam, em momentos das suas escrituras, vídeos publicitários da Prefeitura do Rio de Janeiro, utilizados na divulgação das obras do Porto Maravilha – imagens projetivas e maquetes eletrônicas que estandardizam as transformações a serem implementadas. Em suas montagens singulares, os dois filmes abrigam materiais que atuam na visualização de uma cidade ordenada segundo um vetor do progresso e os desfuncionalizam através de operações de opacidade, gagueira, dessincronias sonoras. Já Europa utiliza uma imagem do mapa da Maraponga, bairro na periferia da cidade de Fortaleza, onde as ruas têm nomes de países europeus. Na articulação de uma outra experiência cartográfica que desloca a centralidade do continente europeu, estamos diante de uma natureza distinta de reemprego. Destacamos aqui a dobra na lógica mesma das razões dos mapas modernos, uma torção onde a cartografia se atenta menos à construção de limites e fronteiras de um território e mais às formas de vida e ocupação do espaço.

Com os filmes, nos mobilizamos pela tarefa de interrogar regimes visuais que se associam intimamente à ordenação dos espaços urbanos, evidenciando um completo coengendramento entre máquinas técnicas e máquinas sociais, entre fazer ver e fazer cidade – o que cotejamentos com a noção de diagrama (em Deleuze e Foucault), e com as proposições de Mondzain a respeito da natureza do visível na sua articulação com uma noção de economia.

Pelas montagens que propõem, os filmes contribuem para algo que Didi-Huberman já observou, certa vez, a respeito dos trabalhos de Harun Farocki, que “definitivamente subscreveu ao fato de que as imagens constituem um bem comum” (DIDI-HUBERMAN, 2010, p.163). Farocki fez do ato de se apropriar de imagens alheias uma forma de retorná-las ao mundo de outras maneiras, já carregadas de efeitos transgressivos, propondo leituras do tempo, do poder e das estratégias do olhar.

Cada filme contribui para um duplo movimento: primeiro, o diagnóstico das propriedades que constituem certa lógica do visível acoplada à gestão dos territórios; segundo, os curtas nos propõem formas para, no seio do visível, gerar desvios nas linhas projetadas por essas visualidades. É um constante gesto analítico diante do real, atento a parar, sublinhar, cortar, rasurar, para convocar o espectador a imaginar outras cidades, distintas daquelas propostas pelos poderes. Das dinâmicas de pretensa neutralidade, transparência e indiferença, constitutivas das racionalidades visuais reempregadas, buscaremos pensar, com os filmes, algumas táticas para enredar os tempos e reagregar espaço e subjetividade.
Bibliografia

BRENEZ, Nicole. L’objection visuelle. In: Le cinéma critique. De l’argentique au numérique, voies et formes de l’objection visuelle. Paris: Publications de la Sorbonne, 2010.

DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2005.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontages du temps subi. L’Oeil de l’histoire: Tome 2. Paris: Les Éditions de Minuit, 2010.

MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

MBEMBE, Achille. O tempo em movimento. In: Revista Contracampo. Edição v.36, número 3, 2017.

MONDZAIN, Marie-José. Imagem, Sujeito, Poder (Entrevista). In: Outra travessia, Florianópolis, n. 22, p. 175-192, ago. 2016.

MOREIRA, Clarissa da Costa. A cidade contemporânea entre a tábula rasa e a preservação: cenários para o porto do Rio de Janeiro. Editora Unesp, São Paulo; 1ª edição, 2005.

SANTOS, Milton. Por uma geografia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Hucitec, 1988.