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  Título
O filme científico de B. J. Duarte: apontamentos consonantes ao som
Autor
Fernanda Teixeira Mendes
Resumo Expandido
Essa comunicação tem por objetivo evidenciar alguns aspectos sonoros presentes nos documentários médico-científicos realizados pelo paulista Benedito Junqueira Duarte durante a década de 1960. Por mais que o personagem em questão seja possuidor de uma extensa filmografia, grande parte de seus filmes se perderam e outros se encontram dispersos em diferentes estabelecimentos e acervos. É por esse fato que, para além de seus escritos e crônicas, aqui iremos tomar para discussão o som de seis de suas películas, as quais podem ser visualizadas no Banco de Conteúdos Culturais (BCC) da Cinemateca Brasileira. São elas: Semiologia neurológica: movimentos involuntários anormais (1964), Hipospádia neouretroplastia (1964), Cirurgia do deslocamento da retina: introflexão escleral com implantes de silicone (1967), Hipospádia (1964), Semiologia neurológica: alterações da marcha (1964) e Teratologia (1963).



B. J. Duarte foi fotógrafo, crítico de cinema, cineasta e possuidor de uma vasta lista de filmes sobre medicina e práticas cirúrgicas realizados com médicos de diferentes instituições paulistas, como: Edmundo Vasconcelos e Dr. Prof. Euryclides de Jesus Zerbine. Além de trabalhar com inúmeros médicos, também realizou filmes em parceria com o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), para os Laboratórios Torres, Carlo Erba do Brasil, Johnson & Johnson, Roche, dentre outros, além de possuir em sua filmografia dezenas de produções independentes (DUARTE, 2007). Dessa forma, se infiltrando na medicina por meio da fotografia e do cinema, viria compensar sua desilusão em não ter se tornado médico.

No decorrer das memórias/momentos que Duarte expõe em seu livro Lâmpada cialítica, namoros com a medicina (1982, v. III) percebe-se o quanto ele era fascinado por uma imagem científica que fosse também artística. Partindo de uma frase dita pelo próprio cineasta: “[...] o meu principal objetivo: tornar também artístico aquilo, que para alguns, deveria restringir-se somente ao científico”, pretendemos dar maior enfoque à estética e à composição de seus filmes a fim de entendermos como atividade científica era apresentada ao público através de sua direção cinematográfica, de seu ponto vista. Entendendo o som como um desses elementos estéticos e de composição que constituem uma obra fílmica, buscaremos compreender como era pensado, como era construído e com que finalidades era utilizado.



De acordo com B. J. Duarte (1982, vol. III), foram diversos os obstáculos que ele e seu assistente Estanislau Szankovski tiveram que enfrentar e controlar no setor do som, principalmente em relação ao vultoso valor da película virgem, tudo isso em busca de um produto didático e científico, mas também estético, original e de qualidade. Seus filmes têm como base melódica uma trilha sonora típica do documentário clássico que segundo Renan Paiva Chaves (2015) é possuidor de uma voz off (“voz invisível”) munida de informação e detentora de atenção, por música incidental clássica do período romântico, cuja possui tendências mais homofônicas e harmônicas, e em último plano pelo ruído de fundo. Além desses, outro elemento que também se faz muito presente é o silêncio, um silêncio que parece ser movido pela concentração e seriedade do evento.



Ao permanecermos nos elementos sonoros que compõem os filmes de B. J. Duarte, percebemos que a música, mais do que a voz, o ruído e o silêncio, estabelece uma relação muito particular com cada filme, sendo, muitas vezes, geradora de emoções diversas, como: tranquilidade, tensão, alívio, etc., podendo, dessa forma, atribuir novos valores à imagem. Visto isso, será que a música pode manipular nossa percepção fílmica tornando o assunto científico menos concreto e objetivo? Essa é apenas uma das questões que pretendemos articular.
Bibliografia

BANCO DE CONTEÚDOS CULTURAIS. Disponível em: . Acesso em: 01 mai. 2018.



CHAVES, Renan Paiva. O som no documentário: a trilha sonora e suas transformações nos principais movimentos e momentos da tradição documentária, dos anos 1920 aos 1960. 2015. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, São Paulo.



DUARTE, B. J. A luz fosca do dia nascente – crônicas e contos da memória. Crônica da memória vol. I; Caçadores de imagens – nas trilhas do cinema brasileiro. Crônica da memória, vol. II; Lâmpada cialítica – namoros com a medicina. Crônica da memória, vol. III. São Paulo: Massao Ohno – Rowistha Kempf/Editores, 1982.



______. B. J. Duarte. Caçador de imagens. São Paulo: Cosac Naify, 2007. Textos: Júnior, Rubens Fernandes et. Al.



NICHOLS, Bill. O filme documentário e a chegada do som. In: MAIA, Guilherme; SERAFIM, José (Org.). Ouvir o documentário – vozes, música, ruídos. Salvador: EDUFBA, 2015. p. 13-26.