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  Título
A temporalidade do “quase” na comédia romântica seriada
Autor
CAROLINA OLIVEIRA DO AMARAL
Resumo Expandido
A comédia romântica tem sido vista como o mais previsível dos gêneros, com um arco narrativo que se move inexorável e invariavelmente do amor à primeira vista ao final feliz com a formação / consolidação do casal final. Embora muitas exceções possam ser encontradas nessa estrutura (Mernit, 2001) e ideologia (MacDowell, 2013) aparentemente inflexível, neste artigo quero argumentar que mesmo as instâncias mais tradicionais do gênero em termos de ação romântica – encontro, desencontro e reencontro, o famoso meet-lose- get – oferecem uma estrutura de tensão narrativa centrada em torno da produção de emoções e “calor” (Greenblatt), uma variação de suspense específica da comédia romântica.

Primeiro, apresento o conceito do espaço cômico ou o espaço característico da comédia romântica (Deleyto, 2009), um espaço utópico onde os personagens podem viver seus desejos livres das inibições que as pessoas normalmente encontram no dia-a-dia. Argumento que esse espaço não existe fora do tempo. Pelo contrário, é crucialmente afetado por um tipo específico de temporalidade, uma dimensão temporal que controla a mise en scène e atrasa a realização dos desejos, além de direcionar o envolvimento do espectador. Isso é o que chamo de temporalidade do quase (2016): a estrutura micro-narrativa que repetidamente faz com que a resolução erótica quase aconteça em vários pontos da história. Esse arranjo temporal funciona como uma estrutura retardadora (Sternberg, 1978), plantando obstáculos aparentemente para manter os personagens separados, mas, de fato, aumentando o fluxo de desejo entre eles e a intensidade da resposta dos espectadores.

Porém, o “quase” não é apenas uma questão de construção temporal. Se fosse, poderíamos substituí-lo por um mecanismo de retardação muito mais conhecido: o suspense. Da mesma maneira, o suspense lida com uma resolução ameaçadora que continuamente se apresenta no horizonte. O quase se difere do suspense por estar protegido pelo espaço cômico, portanto, uma perspectiva não ameaçadora, mas esperançosa. Esperança e Medo são como duas faces de um mesmo sentimento, a dúvida, como coloca Espinosa (2004, p.291)

Com efeito, a esperança não é senão uma alegria instável, nascida da imagem de uma coisa futura ou passada, de cujo resultado, duvidamos; o medo, ao contrário, é uma tristeza instável, nascida também da imagem de uma coisa duvidosa. Se se retira a dúvida dessas afecções, a esperança transforma-se em segurança e o medo em desespero, a saber, a alegria ou a tristeza nascida da imagem de uma coisa que tememos ou esperamos.

Tanto o medo quanto a esperança costumam utilizar um vocabulário referente às reações corporais quanto à dúvida com o resultado final: arrepios, calafrios, excitação. Um dos efeitos dessa temporalidade do “quase” é o de excitação com a história, tendo a satisfação constantemente adiada, até que se chegue ao final.

Das manifestações atuais da comédia romântica, a ficção seriada (Greenwald, 2013) oferece exemplos interessantes de como a temporalidade do quase se encaixa perfeitamente na estrutura do gancho narrativo (cliff hanger) prolongando a resolução para a próxima cena, o próximo episódio ou até a próxima temporada, e intensificando assim o desejo entre personagens e também entre espectador e narrativa. Este artigo analisa como a série de televisão New Girl (2011-2018) emprega essa temporalidade de adiamento constante e contínuo, a fim de criar tramas de comédia românticas para a ficção seriada.
Bibliografia

AMARAL, C. Jogos de amor e de espectador. Novos Olhares, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 72-81, feb. 2016.

DELEYTO, C. The secret life of romantic comedy. Manchester and New York: Manchester University Press, 2009.

ESPINOSA. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

GREENBLATT, S. Shakespearean Negotiations: The Circulation of Social Energy in Renaissance England. Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1988.

GREENWALD, A. Where Has the Love Gone? To the sitcom — and only the sitcom. In: Grantland, 14 February 2013. Acesso: http://grantland.com/features/new-girl-mindy-rise-romantic-sitcom/

MACDOWELL, J. Happy endings in Hollywood cinema: cliché, convention and the final couple. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2013.

MERNIT, B. Writting the romantic comedy: from “cute meet” to “joyous defeat” how to write a screenplay that sell. New York: Harper, 2001.

STERNBERG, M. Expositional Modes and Temporal Ordering in Fiction. Baltimore: Johns Hopkins UP, 1978.