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  Título
Produção de presença em formas narrativas de cinema
Autor
Guilherme de Souza Castro
Resumo Expandido
A pesquisa é sobre as formas expressivas cinematográficas configuradas em modulações de materialidades específicas e analisadas enquanto efeitos de produção de presença e sentido em três filmes brasileiros de 2017 realizados em Porto Alegre. Compreendo as formas expressivas cinematográficas como as ocorrências e arranjos dos elementos dos planos em composições de cenas dispostas em narrativas, a partir de leituras de Bordwell, que estuda o cinema como um sistema de elementos em uma articulação “(d)os meios que essa arte utiliza” (2013, p. 203), e de outros teóricos, como Chion, que entende a narrativa nos modos “como os acontecimentos e os dados da história são levados ao conhecimento do público” (1989, p.87). O embasamento teórico acerca da produção de presença e sentido, no contexto das materialidades da comunicação, é trazido sobretudo de Gumbrecht, que refere a “todos os tipos de eventos e processos nos quais se inicia ou se intensifica o impacto dos objetos ‘presentes’ sobre corpos humanos” (2004, p.13) e que causam efeitos quer de sentido, quer de presença, combinados e tencionados. A investigação é sobre como as formas expressivas cinematográficas se configuram moduladas nas estruturas narrativas desses corpos como possibilidades de efeitos fugidios de tensão entre presença e sentido, o que Gumbrecht explica como a fruição estética.

Em Central (documentário de Tati Sager), ficamos sabendo que no Presídio de Porto Alegre há linhas inimigas armadas que separam as áreas internas dominadas por diferentes facções em guerra, mas em espécie de armistício entre si e com mediação casuística do Estado. O efeito de realidade e presença vem da tensão e contraste entre as cenas feitas com arte e técnica pela equipe de profissionais a partir do espaço controlado pela Força Policial e as imagens amadoras gravadas pelos detentos, do outro lado da linha, dentro das galerias do Presídio comandadas pelo crime, com câmeras fornecidas e a pedido da produção do filme. O sentido se dá pela estratégia e modo cinematográfico de mostrar esse mundo.

Em Rifle (ficção de Davi Pretto), entre pessoas pobres do meio rural contemporâneo, motivado talvez pela opressão social e econômica, talvez pela triste história familiar pregressa, ambas situações configuradas, acompanhamos a revolta (ou surto psicótico) de um jovem que certo dia passa a atirar quase a esmo com seu rifle contra automóveis e motoristas em estradas vicinais. As informações são dadas incompletas e aos poucos, em elaboração minuciosa de planos comprometidos pelo ponto de vista delirante e intenso do protagonista. O filme trabalha com a ambientação do campo sulino, num registro do silencioso e quase vazio, do ventoso e horizontal, cujo linguajar de sempre escassos habitantes é fragmentado e econômico.

Em Cidades Fantasmas (documentário de Tyrell Spencer), Humberstone no Chile, Fordlandia no Brasil, Armero na Colômbia e Epecuén na Argentina, abandonadas por motivos diversos, aparecem em imagens e montagem poéticas, que valorizam os cenários em ruínas, são expressões da ausência e acompanham a narrativa a partir de testemunhos pessoais e emotivos sobre os trágicos eventos passados. A análise verifica os modos cinematográficos de expressão, num estilo de enquadramentos contemplativos e movimentos suaves da câmera que ora aproxima, entra e anda pelos ambientes, ora afasta, e em momentos pontuais acelera ou se torna mais dramática.

Nesta abordagem, os modos de articular os elementos cinematográficos nos corpos dos filmes remetem à sua própria forma de expressão enquanto especificidades de cinema que fazem surgir variados efeitos de presença e de sentido, tais como as ambiências (de modo mais amplo, o Stimmung), os subtextos, as sugestões, as incertezas e incompletudes, o fluxo, a poética visual e sonora, e outras ocorrências sutis observadas como qualidades das obras analisadas.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas: Papirus, 1996.

BORDWELL, David e THOMPSON, Kristin. A Arte do cinema: uma introdução. Campinas: Editora da UNICAMP/Editora da USP, 2013.

CHION, Michel. O roteiro de cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GOLIOT-LÉTÉ, Anne e VANOYE, Francis. Ensaio sobre a Análise Fílmica. Papirus.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, ambiência, stimmung: sobre um potencial oculta da literatura. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2014.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro, Contraponto/Ed. PUC Rio, 2010.

JOST, François e GAUDREAULT, André. El Relato Cinematográfico - ciência e narratologia. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 1995.

MAMET, David. Sobre direção de cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.