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  Título
A auto-mise-en-scène no cinema de Eduardo Coutinho
Autor
Luíza Zaidan
Resumo Expandido
Abordaremos as diferentes formas de atuação presentes no cinema de Eduardo Coutinho, em particular em "Jogo de Cena" (2007); "Moscou" (2009) e "As Canções" (2011). Buscaremos compreender as ações do sujeito que oferece sua imagem à câmera do documentarista e os modos como ele se autorrepresenta. Investigaremos a relação entre realizador, personagens e atores, à luz do conceito de auto-mise-en-scène, cunhado pela pesquisadora Claudine de France e reempregado na obra de Jean-Louis Comolli.

Em sua carreira, Coutinho desenvolveu um método que o consagrou como verdadeiro autor. O cineasta sabia que a simples presença da câmera altera o comportamento do sujeito filmado. Citando a influência do trabalho de Erving Goffman, Coutinho reforçava que não há um verdadeiro, se não aquele representado nas diversas situações sociais. Por tanto, para confrontar-se com esse “verdadeiro” faz-se fundamental abrir espaço para a atuação no documentário. E ela está presente em diversos momentos de sua obra.

A chegada dos atores profissionais na filmografia de Coutinho auxilia na compreensão do modo como a auto-mise-en-scène conforma seu cinema. Buscaremos confrontar sua obra sobre o prisma da atuação, pensando em como se dão as camadas de construção na performance dos atores e dos atores não profissionais. É possível dizer que a personagem real constrói – em um mecanismo mais ou menos conscientemente, catalisado pela câmera – uma partitura de ações e intenções que compõem o seu relato e conferem credibilidade àquilo que diz. Ao compartilhar um capítulo de sua vida, uma personagem real deve recuperar certos aspectos dessa experiência. Como seus cinco sentidos retomam as sensações provocadas pelo acontecimento narrado? Que dimensões do corpo e dos gestos são construídas para provocar, no espectador, a materialização daquele episódio?

A relação entre sujeito filmante e sujeito filmado ganha complexidade quando a analisamos à luz do conceito de auto-mise-en-scène:. O sujeito filmado observa a presença daquele que o filma e se apresenta para o encontro trazendo seus hábitos, gestos e posturas que impregnam as circunstâncias da filmagem. Esse processo pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente, mas é sempre um elemento determinante. Em obras como as de Coutinho, a mise-en-scène declarada (determinada pelo diretor) acaba se atenuando para abrir espaço à auto-mise-en-scène da personagem, o outro com quem se dá a relação.

Em "Jogo de Cena", Coutinho testa os limites de seu método e se debruça sobre a natureza da representação. O espectador é levado a duvidar daquilo que vê e da verdade da fala, em um complexo jogo entre corpos que atuam no filme de diversas formas. Trata-se de uma reflexão sobre como o sujeito filmado compõe sua auto-mise-en-scène e, em parceria com o realizador, constrói a mise-en-scène do documentário. "Moscou" se debruça sobre a experiência do ator que encena a si mesmo e a uma personagem ficcional. Em "As Canções", diversos personagens dividem seus relatos com a câmera e tem o cineasta como fiel interlocutor. Desde o início do filme, vemos um Coutinho totalmente presente na relação com a personagem (ainda que sua presença seja perceptível apenas através da voz). Se, até aqui, a presença do documentarista se dava na forma de entrevista, em "As Canções", a relação assume forma de diálogo. Ou melhor: de dueto.

A análise dos três filmes abre espaço para a discussão sobre a importância da relação e da autorrepresentação para a construção da mise-en-scène na obra do cineasta. Tal reflexão se apoiará nos estudos da Teoria do Documentário e das teorias sobre o trabalho do ator (acting studies), além do trabalho de Comolli sobre auto-mise-en-scène, presente no livro "Ver e Poder". Para a análise fílmica, utilizaremos autores como Consuelo Lins; Cláudio Bezerra e Ismail Xavier, assim como o texto "A mise-en-scène do documentário: Eduardo Coutinho e João Moreira Salles", onde Fernão Pessoa Ramos disseca os modos de encenação no documentário
Bibliografia

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