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  Título
Tempo, observação e poesia no pensamento e na arte de Andrei Tarkovski
Autor
Beatriz Avila Vasconcelos
Resumo Expandido
O tempo, mais precisamente o ritmo, que é o tempo sentido como passagem, “tempo original”, como teoriza o poeta e crítico Octavio Paz (2012: 64), é precisamente "o núcleo do poema" (PAZ, 2012: 76). Também para Tarkovski o núcleo do cinema reside no tempo: "O tempo, registrado em suas formas e manifestações reais: é esta a suprema concepção do cinema enquanto arte, e que nos leva a refletir sobre a riqueza dos recursos ainda não usados pelo cinema, sobre seu extraordinário futuro. A partir desse ponto de vista desenvolvi as minhas hipóteses de trabalho, tanto práticas como teóricas". (TARKOVSKI, 2010: 71-72, grifos do autor)



O tempo se torna, assim, nas próprias palavras de Tarkovski, o elemento a partir do qual seu pensamento e sua criação se desenvolvem e devem ser compreendidos. O tempo é também o elemento que compromete o seu cinema com a ordem do poético. Assim como "o poeta encanta a linguagem por meio do ritmo" (PAZ, 2012: 63), tempo materializado, Takovski encanta o cinema por meio do tempo, “em suas formas e manifestações reais”. Quais seriam estas formas e manifestações reais do tempo que se materializam no cinema de Tarkovski? Aqui se lança uma questão que convida ao delineamento de uma cartografia do tempo, e portanto, do poético na arte deste realizador.



Um outro aspecto a ser considerado no pensamento e na estética de Tarkovski para compreender a relação de seu cinema com o modus da poesia é que o tempo, segundo ele, “se manifesta na forma de um evento real”, e, para ser criado e sentido, necessita de uma atitude especial, que é a atitude de observação: "Se, no cinema, o tempo se manifesta na forma de um evento real, este se dá em forma de observação simples e direta. O elemento básico do cinema, que permeia até mesmo suas células mais microscópicas, é a observação". (TARKOVSKI, 2010: 75)



Antes de tudo, o tempo caro ao cinema de Tarkovski é uma experiência e, como tal, algo que pertence ao sujeito. É preciso, assim, “estar diante de” para criar e perceber a poesia e a experiência do tempo/ritmo que a observação do fenômeno nos permite. Uma dialética sutil se estabelece entre sujeito e objeto, em que o olhar do sujeito para o objeto, a sua observação, a observação do tempo que passa, só pode ser sentida como tempo que se passa em mim, tempo-memória, sempre tão presente no cinema de Tarkovski. No pensamento, como na estética, de Tarkovski esta ideia do tempo como experiência memorial do sujeito não deve, no entanto, ser compreendida pelo viés de um subjetivismo, oposto ao realismo e à atenção ao mundo. Assim, Tarkovski recusa as “pretensões do moderno” do chamado cinema poético, “que implica perda de contato com os fatos e com o realismo temporal, fazendo concessões ao preciosismo e à afetação” (2010: 79). Afastando-se deste tipo de poesia, Tarkovski irá buscar no haicai o modelo para a experiência poética próxima de seu cinema, ou do cinema em geral, justamente por este tipo de poema estar profundamente fundado na observação: "Embora eu seja muito prudente ao fazer comparações com outras formas de arte, este exemplo específico da poesia parece-me muito próximo à verdade do cinema", ele diz (2010: 76-77).



Opondo-se à fascinação de Eisenstein pelo aspecto de montagem presente no esquema de justaposição de três versos deste tipo de poema, o que fascina Tarkovski no haicai é “a sua observação da vida – pura, sutil e inseparável de seu tema” (2010, p.76). O trabalho de esculpir o tempo, entendido por Tarkovski como a essência do trabalho de um diretor (2010: 72), compara-se, assim ao trabalho do haicaista: captar, na “observação direta da vida”, a transitoriedade, o tempo que passa, e com isto, com-por um cinema no cerne da poesia: "...um filme nasce da observação direta da vida; é esta, em minha opinião, a chave para a poesia do cinema. Afinal, a imagem cinematográfica é essencialmente a observação de um fenômeno que se desenvolve no tempo". (TARKOVSKI, 2010: 77)
Bibliografia

GIANVITTO, John. Andrei Tarkovski's Interviews. University Press of Mississipi, 2006.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. São Paulo: Cossac Naïf, 2012.

TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

TARKOVSKI, Andrei. Diários. 1970-1986. São Paulo: E-Realizações, 2012.