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  Título
ENSAIOS SOBRE O VIDIGAL: O CINEMA, A ESCOLA, E A MEMÓRIA DA FAVELA
Autor
Marta Cardoso Guedes
Resumo Expandido
O trabalho que desenvolvemos na E. M. Djalma Maranhão investiga, por meio do projeto de cinema (CINEAD), a memória da favela do Vidigal. Em 2015 produzimos o documentário Paraíso Tropical Vidigal. Em 2017, entramos em contato com antigos moradores/ativistas que lutaram contra a remoção da favela do Vidigal nos anos 1970 buscando pesquisar que memórias o projeto de cinema pode dar a ver e produzir na escola.

Compreendendo o cinema na escola como fortalecimento na autonomia pedagógica frente a inúmeros ataques impostos pelas políticas públicas educacionais, de cunho neoliberal, que cerceiam a criação e a imaginação de crianças e jovens em desenvolvimento, apostamos no par memória/imaginação, em uma abordagem estética, que se propõe a superar o modelo transmissivo-conteudista.

A imaginação provém da relação entre fantasia e realidade, do conhecimento acumulado da humanidade, e da emoção (VIGOTSKI, 2009). A linguagem cinematográfica tem a capacidade de envolver os espectadores pela mobilização de seus sentidos, configurando-se como uma excelente possibilidade de enquadramento da memória por não se dirigir apenas às capacidades cognitivas, mas, sobretudo por captar as emoções. É pelo testemunho do insustentável que o cinema pode impedir o esquecimento (POLLAK, 1989).

Como pequenos cineastas amadores, os alunos do projeto capturaram em suas lentes os testemunhos de antigos moradores/ativistas no evento 40 anos de resistência do Vidigal. Testemunhos que nos atravessaram apontando pistas, reminiscências, pontos de vista particulares, vivências pessoais que constroem nossa narrativa de memória própria de uma história que almeja atentar para a experiência dos indivíduos captada nas relações que eles mantêm com outros indivíduos e com o meio social (REVEL 2010). Nesta ocasião Felícia Krumholz anuncia que possui, guardadas em uma caixa de isopor, as imagens em Super-8 que fez na época da tentativa de remoção da favela em 1977.

Em dezembro de 2017 nos reencontramos na Cinemateca do MAM, RJ, para mergulharmos nos arquivos de memória de Felícia, que a partir do projeto de cinema da escola, fazem parte do Lote da Associação dos Moradores do Vidigal, no acervo da Cinemateca. O Projeto de Cinema está responsável, pela limpeza, digitalização, e telecinagem deste material, que inclui, além dos filmes Super-8, negativos de fotos e fitas cassete com entrevistas da época.

Quais são as implicações de um encontro desta natureza no âmbito escolar?

Um primeiro aspecto que sinalizamos é a conscientização da preservação e da atualização da memória para toda e qualquer forma de luta. Algumas experimentações que viemos ensaiando apontam a possibilidade de montar um testemunho da luta pelo território da Favela do Vidigal, que apoiado em imagens Super-8 de uma cineasta amadora, somadas as imagens realizadas pelos alunos do projeto de cinema, possa ao invés de “dizer”, estar mostrando esta luta.

Apesar de estamos falando de um projeto de cinema realizado por alunos muito jovens e por professores não cineastas (BERGALA, 2008), o desejo de atualização do passado de um grupo que lutava por uma causa comum (HALBWACHS, 1990), com vistas a uma melhor compreensão do momento presente (BENJAMIN, 2009), e a possibilidade de estarmos constituindo um arquivo de memória de uma comunidade em nosso projeto de cinema (FARGE, 2017), nos faz pensar uma montagem documental que talvez possa mostrar o que não pode ser dito (LEANDRO, 2017).

O segundo aspecto que pretendemos desenvolver diz respeito à possibilidade da dupla cinema/memória na escola estar potencializando a igualdade das inteligências. Na ordem intelectual, podemos tudo o que pode um homem, pois tudo está em tudo (RANCIÈRE, 2011). Qual a potência de uma montagem dessa história de luta e resistência como ficção de memória, para compreensão na escola, do que se é, e do que se faz na ordem social? Do que pode uma inteligência quando se considera como igual a qualquer outra e qualquer outra como igual a sua?
Bibliografia

BERGALA, Alain. A Hipótese-Cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink Publicações LTDA, 2008



BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: editora da Universidade Federal de Minas Gerais. 2009



FARGE. Arlette. O Sabor do Arquivo. São Paulo: Edusp, 2017



HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. SãoPaulo: Editora Vértice. Editora Revista dos Tribunais LTDA, 1990



LEANDRO. Anita Dossiê Imagens do Presente. Revista Imagens do Presente V 20 N 2 Rio de Janeiro, 2017



POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989



REVEL, Jacques. Micro-história, macro-história: o que as variações de escala ajudam a pensar em um mundo globalizado Em: Revista Brasileira de Educação V 15 n 45 2010



RANCIÈRE, Jacques. Mestre Ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual. Belo Horizonte: Autêntica, 2011



VIGOTSKI, Lev S. Imaginação e Criação na Infância. São Paulo: Editora Ática, 2009