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  Título
Filme experimental e antropologia: Lothar Baumgarten
Autor
Lucas de Castro Murari
Resumo Expandido
O trabalho artístico de Lothar Baumgarten tem explorado uma série de dispositivos visuais (filme, fotografia, artes plásticas) com intuito de embaralhar conceitos chaves do pensamento contemporâneo: natureza e cultura, “nós” e “eles”, humano e não humano. O estabelecimento desse tipo de dualismo efetuado pelas ciências tem se tornado um procedimento comum para auxiliar suas definições. A filósofa Donna Haraway (2009, p. 59) se refere a esse modelo esquemático como as “velhas e confortáveis dominações hierárquicas”. São aproximações empregadas para justificar a diversidade dos tipos analisados, contudo reiterando sua pretensão universal. A via problemática requerida por esse binarismo é o privilégio da dimensão humana, ou a hegemonia do “sujeito” frente ao “objeto”.



Uma das formas de Baumgarten desconstruir alguns desses parâmetros ocidentais é por meio do contato e diálogo com povos ameríndios. Esse artista de vanguarda alemão vem realizando obras frequentes desde a década de 1970 junto aos povos originários das Américas, borrando princípios dicotômicos por meio de complexas elaborações estéticas, questionando assim a “verdade” por trás das imagens técnicas. Um conceito que se destaca nessa aproximação é o animismo, isto é, um tipo de compreensão ontológica em que qualquer espécie pode assumir uma perspectiva de mundo. É uma forma de pensamento presente no norte e no sul das Américas, na Sibéria e em algumas partes do sudoeste asiático. As etnias indígenas, em geral, são exemplos de povos que adotam uma ontologia animista. Tudo é natural e cultural ao mesmo tempo. Para pensar a natureza, leva-se em consideração a integração no meio, e não o distanciamento. O elo comum do animismo é o espírito, a alma, que os seres pressupõem. Os mitos indígenas são exemplares desses valores. Uma obra de destaque de Baumgarten nesse sentido é o longa-metragem “The Origin of the Night (Amazon Cosmos)”, que começou a realizar em 1973 e finalizou em 1977. O filme é inspirado em mitos da etnia Tupi extraídos da publicação "Do Mel às Cinzas - Mitológicas 2", do antropólogo Claude Lévi-Strauss, mas está longe de ser uma mera ilustração dos relatos. “The Origin of the Night” não apresenta nenhum sujeito humano em sua narrativa, mas se vale apenas da figuração de animais, insetos, plantas e árvores. É uma estética da floresta, que valoriza toda a multiplicidade de vidas presente nesse microcosmo. Outro experimento conceitual adotado pelo artista para complexificar o pensamento ocidental sobre o “outro” amazônico é realizado por meio de um forte discurso textual, um dispositivo que ressalta a violência linguística.



Nesta pesquisa, pretende-se examinar a estética do filme experimental “The Origin of the Night” tomando como base os procedimentos cinematográficos adotados e sua relação com o campo da antropologia. A obra possui pontos de contato tanto com teorias de Claude Lévi-Strauss, Philippe Descola, Eduardo Viveiros de Castro, como também com realizadores caros ao estilo etnográfico (Robert Gardner, Timothy Asch, David MacDougall). O crítico de arte Hal Foster em seu ensaio “O artista como etnógrafo” defende a existência de uma “virada etnográfica” na arte das últimas décadas, uma valorização da política de alteridade. Foster, contudo, sinaliza isso como mais um sinal de retorno às vanguardas históricas. Se na década de 1920 havia um forte impacto da psicanálise e do surrealismo (e seus respectivos termos: consciente, inconsciente, sonho etc.), mais recentemente é possível notar o impacto da natureza e ecologia na arte contemporânea. É nesse segundo contexto que a estética animista de Baumgarten se insere.
Bibliografia

DEMOS, T.J. Decolonizing nature: Contemporary Art and the Politics of Ecology. Berlim: Sternberg-Press, 2016.



DESCOLA, Philippe. Par-delà nature et culture. Paris: Gallimard, 2005.



FOSTER, Hal. O retorno do real: a vanguarda no final do século XX. São Paulo: Cosac Naify, 2014.



FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2007.



HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz (Orgs.). Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. p. 33-118.



LÉVI-STRAUSS, Claude. Do mel às cinzas: Mitológicas II. São Paulo: Cosac Naify, 2005.



KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.



VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem (e outros ensaios de antropologia). São Paulo: Cosac & Naify, 2011.