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  Título
Horror e questões de gênero em A mulher que inventou o amor (1980)
Autor
Tiago José Lemos Monteiro
Resumo Expandido
A mulher que inventou o amor é um longa-metragem brasileiro de 1980, dirigido por Jean Garrett, escrito por João Silvério Trevisan e fotografado por Carlos Reichenbach. Tradicionalmente associado ao ciclo de produção cinematográfica de endereçamento popular-massivo da Boca do Lixo paulistana, o filme se revela representativo das tensões e ambiguidades que caracterizam parte substancial deste universo, sobretudo em sua tentativa de alcançar uma espécie de “terceira via” entre a estética da exploração que pautava a maioria dos títulos provenientes da Boca, e as propostas artísticas tidas como mais sofisticadas que diversos cineastas logravam empreender.



Por um lado, A mulher que inventou o amor se apropria abertamente de alguns códigos estilísticos e narrativos vinculados a um imaginário de gênero (no caso, o horror e o melodrama); por outro, se mostra disposto a tensionar estes mesmos elementos, ao reenquadrá-los sob uma perspectiva consideravelmente distinta daquela que pautava as incursões mais convencionais da Boca em relação às questões de gênero, sexualidade e representação. O ponto de partida da trama é, até certo ponto, alinhado à subvertente dos rape & revenge movies, tendência então em voga no âmbito do horror de exploração internacional após a repercussão e controvérsia despertada por títulos como The last house on the left (Wes Craven, 1972) e I spit on your grave (Meir Zarchi, 1978), dentre outros. No filme de Jean Garrett, entretanto, o estupro sofrido pela personagem Doralice (Aldine Müller) serve de catalisador para uma vingança direcionada não exatamente contra o perpetrador de tal ato, mas para todos os homens (em sua maioria, representados como fracos, patéticos, egoístas ou aproveitadores) que atravessam seu caminho. Não obstante, o percurso erótico e existencial que, pouco a pouco, transforma a ingênua e romântica Doralice na vampírica Talulah também ilustra a concepção de gênero como performance que parece atravessar o roteiro de Trevisan, repleto de momentos nos quais os personagens encenam identidades não-normativas sob o aparente controle exercido pela protagonista.



Do ponto de vista formal, por sua vez, A mulher que inventou o amor manifesta um refinamento do apuro técnico e do gosto pela mise-en-scéne elaborada que Jean Garrett já manifestara em longas anteriores, como Amadas e violentadas (1976), Excitação (1977) e A força dos sentidos (1980). Sequências como a do estupro no açougue, a visita ao night club e, sobretudo, o sacrifício ritual do astro de telenovelas na cena final do filme denotam o conhecimento de um repertório estilístico que vai do giallo italiano ao terror erótico e sobrenatural francês do período, passível de ser atribuído à contribuição criativa de Carlos Reichenbach na direção de fotografia.



Tantas ambivalências podem estar na origem da recepção nada consensual que o longa obteve por ocasião de seu lançamento comercial, saudado por alguns críticos como um filme “carregado nas tintas” (Jornal do Brasil), “uma lição de ‘deserotismo’”, “irritante, chocante, bonito, desagradável (…), mas nunca menos do que inusitado” (Jornal da Tarde), “irreverente e criativo” (Lampião da esquina) ou mesmo como uma “tremenda chacota a título de puxar pelo intelecto” (O Globo). Poderíamos, assim, apreender A mulher que inventou o amor como o resultado de uma articulação complexa entre a sensibilidade queer do roteiro de Trevisan; o tom grotesco, absurdo e excessivo característico das rupturas de linguagem valorizadas pelo udigrudi dos anos 1960 e 1970 (de onde vieram Reichenbach e Trevisan); e, por fim, o desejo de comunicação com o grande público pela via do entretenimento e do imaginário de gênero presente na filmografia de Jean Garrett. Um olhar sobre esta obra nos forneceria, por fim, subsídios para uma reflexão crítica acerca das eventuais heranças que A mulher que inventou o amor teria legado ao cinema de horror feito no Brasil hoje, bem como sobre a questão do feminino no âmbito deste gênero
Bibliografia

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