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  Título
REVISÃO DA VALIDADE DA PSICANÁLISE COMO FERRAMENTA NA ANÁLISE FÍLMICA
Autor
Carlos Gerbase
Resumo Expandido
A semiologia, o marxismo e a psicanálise foram, durante boa parte do século 20, ferramentas teóricas importantes na análise da narrativa cinematográfica. Esta constatação, presente em texto de Ismail Xavier publicado em sua clássica antologia A experiência do cinema, lançada em 1983, dificilmente seria motivo de polêmica em meados dos anos 80. Mas Ismail deu um passo a mais: escreveu que, naquele momento, tanto a semiologia quanto o marxismo estavam enfraquecidos pelos “desquites, reconciliações, rearranjos e ressentimentos” (XAVIER, p.356) ocorridos na arena epistemológica dos anos 70. Enquanto isso, a psicanálise ainda resistia, pois permanecia como “o elemento mais estável, ponto de articulação que permanece mais atrativo a teóricos de orientações distintas” (XAVIER, p.356).



Ismail escolheu cinco autores do campo da reflexão cinematográfica que trabalharam com a psicanálise para compor a terceira parte do livro (O prazer do olhar e o corpo da voz: a psicanálise diante do filme clássico): o alemão Hugo Mauerhofer (em texto de 1949), os franceses Jean-Louis Baudry (em texto de 1970) e Christian Metz (em texto de 1975 e entrevista concedida em 1979), a inglesa Laura Mulvey (em texto de 1975) e a americana Mary Ann Doane (texto de 1980).



O texto de Christian Metz, com o título de História/discurso (nota sobre dois voyeurismos) é curto (nove páginas) e claro. Quase sem usar jargões, Metz fala como um intelectual que domina seu objeto (o cinema) e é capaz de estabelecer um discurso sobre o espectador voyeur no cinema que pode ser interpretado sem consultas constantes a um dicionário de termos psicanalíticos. Entretanto, na entrevista que se segue, o resultado é bem diferente. Segundo Ismail Xavier, Metz “discute as relações cinema/sonho, cinema/devaneio, cinema/fantasia, tentando tornar menos metafóricas as afirmações a que já estamos acostumados” (p.364). Para isso, faz largo uso de conceitos freudianos e lacanianos, chegando, à “ausência do pênis na mulher”, que origina o “processo do fetichismo” (XAVIER, p.429).



Na boa ciência, para além dos jargões e dos conceitos teóricos estão ideias que dialogam com a realidade. Ou pelo menos deveriam dialogar. Entre 1983 (ano de lançamento de A experiência do cinema) e 2018 (ano em que escrevemos) passaram-se 35 anos. Nossa proposta é voltar ao pensamento de Metz e dar mais um passo no raciocínio de Ismail Xavier, fazendo a pergunta: a psicanálise de base freudiana ainda é uma boa base para analisar a narrativa dos filmes contemporâneos?
Bibliografia

COUTINHO, Angélica; LIRA GOMES, Breno (orgs.). El deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar. Brasília: CCBB, 2011.

FREUD, Sigmund [1899]. A interpretação dos sonhos. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

________________ [1920]. Além do princípio do prazer. In: História de uma neurose infantil ( “O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920) – Obras completas, vol. 14. São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 120 – 178.

METZ, C. O Significante Imaginário – Psicanálise e Cinema. Lisboa: Horizonte., 1980.

PEREIRA, J. V. S. Psicanálise e cinema: sexualidade, desejo e pulsão de morte em Almodóvar. 2015. 82f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Departamento de Psicologia, PPGPSI-UFSJ, São João del-Rei, 2015.

STRAUSS, F. Conversas com Almodóvar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal. 1983.