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  Título
A domesticação de imagens públicas em No intenso agora.
Autor
Patricia Furtado Mendes Machado
Coautor
Thais Blank
Resumo Expandido
Como imagens familiares e pessoais são compartilhadas e desencadeam memórias comuns? Que relações podemos estabelecer entre imagens da banalidade do cotidiano e os rumos de um país? Essas são questões que parecem estar na base de uma produção documental recente realizada na esteira daquilo que Beatriz Sarlo (2007) identifica como um processo iniciado ainda nos anos 1970 e que explode a partir dos anos 2000, quando começamos a assistir não só no espaço acadêmico, mas sobretudo no campo da produção cultural, a explosão de narrativas que propõem reconstruir a história a partir da rememoração da experiência pessoal e individual.

Investigando as fronteiras entre o privado e o público, entre a grande e a pequena história, foram realizados nas últimas duas décadas inúmeros documentários, que partindo de contextos tão distintos como as ditaduras da América Latina e o extermínio dos judeus no Holocausto e, lançando mão de estratégias também absolutamente divsersas, possuem em comum o desejo de colocar em cena a subjetividade e, porque não, a intimidade daqueles que tiveram suas vidas arrastadas para dentro do turbilhão da história. Dentro dessa vasta e heterogênea produção alguns filmes lançam mão de uma estratégia comum: a retomada de imagens familiares e amadoras. Gestadas no ambiente doméstico como souvernirs da vida familiar, essas imagens são deslocadas para o espaço público onde ganham, pelo trabalho de montagem e articulação em um novo contexto fílmico, novas camadas de sentido.

Propomos analisar o último filme do documentarista João Moreira Salles, que tendo como ponto de partida as imagens amadoras produzidas por sua mãe em uma viagem à China, propõe uma reflexão mais ampla sobre acontecimentos políticos que marcaram a década de 1960: o Maio de 68 em Paris, a Primavera de Praga e a morte do estudante Edson Luís no Brasil. Interessa-nos investigar o gesto de apropriação do cineasta e as estratégias de montagem que o permitem vincular as imagens maternas aos destinos de uma época. No intenso agora nos instiga a colocar questões não só ao filme, mas ao próprio campo dessa produção documental que vem se servindo das mais variadas formas das imagens amadoras, pois ele assume um movimento que até então só aparecia como o resultado de estratégias fracassadas.

Da obra do cineasta Húngaro Peter Forgacs à série documental Nós filmamos a Guerra em Cores, produzida para a TV francesa, o que assistimos é o desejo manifesto de dotar as imagens amadoras de um interesse comum, abrindo-as para a história. Com maior ou menor eficácia, os realizadores engajados nesses projetos perseguem, ainda que nem sempre alcancem, fazer a passagem do privado para o público. Nesse trabalho, propomos explorar como as operações de montagem empregadas em No intenso agora na costura das imagens familiares com os registros dos acontecimentos históricos, adotam o movimento contrário: transportam para a esfera familiar e doméstica imagens que foram produzidas no espaço público e que pertenciam à memória comum.
Bibliografia

BLANK, T. Da tomada à retomada: origem e migração do cinema doméstico brasileiro. Tese de Doutorado defendido na Escola de Comunicação da UFRJ, 2015.

LINS, C. BLANK, T. Filmes de família, cinema amador e a memória do mundo. Trabalho publicado no XXI Encontro Anual da Compós, Universidade Federal de Juiz de Fora, 12 a 15 de junho de 2012.

MACHADO, P. IMAGENS QUE RESTAM: a tomada, a busca dos arquivos, o documentário e a elaboração de memórias da ditadura militar brasileira. Doutorado defendido na Escola de Comunicação da UFRJ, 2016.

MIGLIORIN, C. No intenso agora, de João Salles. In: http://a8000.blogspot.com.br/2017/11/no-intenso-agora-de-joao-salles.html

SARLO, B. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.