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  Título
Rebentos do Cinema Ayoreo
Autor
Bernard Belisário
Resumo Expandido
Muitas árvores são capazes de crescer de novo, mesmo quando parecem estar mortas. Isso geralmente acontece na forma de brotos que rebentam ao redor do toco que restou da árvore. Mais notáveis ainda são aquelas espécies capazes de regenerar de simples talhos ou partes, como de um galho cortado, um tronco serrado, ou mesmo uma tora parcialmente queimada. Nesses casos, um pedaço da árvore pode enraizar em outro lugar, tornando a crescer galhos e folhas novamente. É possível, se as condições são certas, que toda uma nova árvore cresça de fragmentos violentamente avariados da sua forma anterior. Os índios Ayoreo – um pequeno grupo indígena contatado recentemente bastante atento à diminuição da densa floresta da sua terra ancestral no Gran Chaco, no Paraguai e Bolívia – referem-se a esse tipo particular de crescimento com o termo ‘ujirei’ (Belisário & Bessire, 2018).

‘Ujirei’ é também o título de um filme recente feito por Mateo Sobode Chiqueno como parte do Projeto de Vídeo Ayoreo, desenvolvido e coordenado pelo antropólogo Lucas Bessire em colaboração com líderes Ayoreo e com o Vídeo nas Aldeias. O filme recebeu uma Menção Especial na 8ª edição do Prêmio Anaconda (2017-18) no Paraguai. A primeira oficina do projeto (filmagem) aconteceu em agosto de 2015. Os participantes Ayoreo eram de cinco aldeias diferentes, algumas delas historicamente hostis entre si, e de ambos os lados da fronteira entre Paraguai e Bolívia. Para colaborar na concepção, coordenação e documentação da oficina, o coordenador do projeto convidou Ernesto de Carvalho, realizador e membro do Vídeo nas Aldeias, assim como Kamikiá, cineasta e comunicador Indígena do povo Kisêdjê (Suyá) formado pelo VNA. Foram doados geradores e projetores paras as aldeias que sediaram as oficinas, assim como uma pequena ‘handycam’ HD (com cartões de memória e bolsa) para cada equipe. A partir de uma introdução à operação (básica) do equipamento de vídeo digital, estabeleceu-se uma rotina de viagens e visitas às aldeias, nas quais eram feitas exibições comentadas do material filmado pelos participantes – sobre os temas e sujeitos com quem escolhiam filmar (Bessire, 2017).

Oito meses depois (abril de 2016), chegamos ao Chaco para desenvolvermos um método de trabalho que possibilitasse às equipes das aldeias experimentar a prática de edição do material realizado na oficina de filmagem, de modo que cada grupo pudesse elaborar um filme com seu material – coisa que nem sempre era evidente para nós e para os participantes. Comumente os Ayoreo parecem considerar o cinema ora como um gênero completamente alheio, ora como um modo de exploração da sua imagem por parte de oportunistas (geralmente ‘cojñone’, brancos). Enquanto tínhamos ciência do sucesso político e social do vídeo indígena na América Latina, esses projetos ainda eram novidade no Chaco paraguaio, uma região altamente segregada, mesmo das políticas indigenistas metropolitanas (como se pode ver no filme de Sobode).

A oficina de edição aconteceu em uma casa alugada no município de Loma Plata (BQ), uma colônia agropecuária Menonita ao norte do Paraguai, localizada a uma distância que nos possibilitava chegar de carro às aldeias dos participantes. Definimos alguns parâmetros básicos para o trabalho: alternar as diferentes equipes de realizadores ao longo da oficina; editar diretamente na língua Ayoreo, sem um trabalho anterior de tradução e legendagem do material filmado (tendo em vista que o antropólogo compreende e fala a língua); não colocar ênfase na tecnologia de edição em si, trabalhando efetivamente com a projeção da janela de visualização da montagem. A partir daí, pudemos nos confrontar com as questões que envolveram tanto a tomada de decisões na montagem dos filmes, quanto a etiqueta cultural. Nesta apresentação, pretendemos assistir trechos e analisar algumas decisões que construímos no processo de montagem do média-metragem ‘Ujirei’ e seus efeitos na forma do filme, sob a chave da ‘equivocação’ (Viveiros de Castro, 2004).
Bibliografia

BELISÁRIO, Bernard & Lucas BESSIRE. 2018 . ‘Ujirei’: Rupture and Regeneration in Ayoreo Cinema. (manuscrito).

BESSIRE, Lucas. 2017. Glimpses of Emergence in the Ayoreo Video Project. In: Visual Anthropology Review, 33 (2), p. 119-129.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. 2004. Perspectival Anthropology and the Method of Controlled Equivocation. In: Tipití, 2 (1), p. 3-22.