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  Título
Cinema político italiano, dimensões: Daniele Luchetti e Nanni Moretti
Autor
Gabriela Kvacek Betella
Resumo Expandido
A ideia de cinema político tem sido objeto de debates no contexto italiano desde os anos de 1960. Os filmes chamados políticos devido ao assunto, intenção programática ou ponto de vista tiveram grande visibilidade como cinema militante e, no tocante aos formatos, ainda desfrutavam a vantagem de contar com modos mais leves e novas tecnologias. Sob discussões acerca de ideologias e técnicas, o cinema político atravessou os anos de 1970 com popularidade, embora estivesse latente, de um lado, a importância da ideologia como estrutura hermenêutica de estilo, de uma linguagem cinematográfica como instrumento de mistificação ideológica (uma hipótese de ação política e militante do cinema) e, de outro, a técnica associada a interesses comerciais voltados para a produção e distribuição (uma hipótese de “burguesificação”).

É legítimo revisitar os debates para avaliar as possibilidades para o cinema político italiano na contemporaneidade. Ao analisar o núcleo político da comunicação fílmica, sabemos que ele compreende o conteúdo e os modos de comunicação, para respeitar a lição de Lino Micciché. Não há definição estável para cinema político, nem é possível considerá-lo um gênero, contudo para Grande (1995) é um filone que corta diversos gêneros e subgêneros nomeando sua atitude. Este trabalho parte da premissa de que o cinema pode iluminar e tornar mais compreensíveis por meio de suas formas de composição das imagens e dos conteúdos empenhados os momentos políticos complexos ou a relação das imagens com a vida pública italiana. Investigamos aspectos da história recente por meio da análise de dois filmes com novas relações entre fenômenos políticos. Formas e imaginário dividem um substrato alheio à vida cotidiana, um pouco além dos sentimentos e vivências do dia-a-dia.

Durante os acontecimentos de Tangentopoli, no início dos anos de 1990, o cinema italiano passa a representar um dos períodos mais imprevisíveis. O senhor ministro, de Daniele Luchetti, enfrenta o establishment político mesmo antes dos escândalos. A nova fase da República Italiana é trazida para as telas por um certo tipo de cinema de autor que inclui diretores como Nanni Moretti, que nos oferece uma interpretação refinada de aspectos cruciais da vida política recente com O crocodilo, filme cuja perspectiva nos parece única ao se concentrar sobre a figura política mais invasiva e icônica dos últimos tempos, Silvio Berlusconi.

No filme de Luchetti, o ministro Cesare Botero (interpretado por Nanni Moretti) se utiliza do trabalho de um assessor para a composição de seus discursos. Luciano Sandulli, o ghost-writer (interpretado por Silvio Orlando), tem sua vida inteiramente mudada enquanto segue confiando nas instituições, mesmo com suspeita sobre a reputação do ministro, que se confirma com a constatação amarga de que as declarações e discursos que o próprio Luciano escrevia muito ajudaram a encobrir irregularidades. O filme representa fenômenos como a coexistência entre traços de elevada consideração moral e algumas baixas manifestações, na prática.

Assim como encarna Cesare Botero, Moretti interpreta Silvio Berlusconi na produção que o diretor Bruno Bonomo (interpretado por Silvio Orlando) tenta filmar em O crocodilo. Rodado por Nanni Moretti quinze anos mais tarde, o longa parece contrapor o tom farsesco à gravidade dos fatos e, no entanto, percebemos que o grande estrago provocado nas instituições também pode ser representado por esse contraponto, e talvez seja este o formato ideal para a reprodução dos eventos absurdos. A interpretação do sentido que o filme dentro do filme pode oferecer à obra de Moretti pode ter como cenas capitais as únicas que o personagem Bonomo consegue filmar. Elas recuperam a artificialidade da figura política a ser representada, e mostram a vulnerabilidade aliada ao tom ameaçador do político que deixa o tribunal condenado, porém nada inofensivo.
Bibliografia

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