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  Título
Palco e intermidialidade no filme O Ébrio (1946) de Gilda de Abreu
Autor
Margarida Maria Adamatti
Resumo Expandido
O filme O Ébrio (1946) de Gilda de Abreu foi feito a partir da adaptação teatral da peça homônima de Vicente Celestino. O produtor Adhemar Gonzaga propôs a Gilda de Abreu um regime de coprodução na Cinédia, pensando no sucesso garantido que o nome do tenor traria à obra. A estratégia saiu a contento, e o filme transformou-se numa das maiores bilheteria do cinema brasileiro. Nesse sentido, Os Ébrios intermidiáticos compõem um projeto integrado de autoria conjunta do casal Vicente Celestino e Gilda de Abreu, lançado em cinco mídias: música, peça de teatro, filme, romance e telenovela. Em 1935, o tenor Vicente Celestino cantou pela primeira vez “O Ébrio” na Rádio Guanabara. No ano seguinte, a canção foi lançada em disco. Depois do enorme sucesso da música, em 1941, a história chegou aos palcos. O público de teatro e circo pôde acompanhar a encenação do Ébrio até a década de sessenta. Pensando em atingir todos os públicos possíveis, Gilda de Abreu ampliou os detalhes da trama no romance de 400 páginas, que recebeu o mesmo título. Os infortúnios do personagem Gilberto tiveram ainda direito a uma continuação rocambolesca em Alma de Palhaço, que estreou na forma de romance e radionovela nos anos cinquenta. Numa série de remediações entre as mídias, entre 1965-1966, a TV Paulista levava ao ar a telenovela O Ébrio, com a participação especial do cantor no primeiro episódio.

Se o público aplaudia, durante a estreia do Ébrio, no Jornal da Noite, o crítico Pedro Lima condenou a presença do teatro no filme, como uma incapacidade técnica da diretora de adaptar seu trabalho para as telas:



“(...) O assunto escolhido foi uma popular canção e a peça teatral de seu esposo, que ela procurou

dar um tratamento cinematográfico e que não conseguiu, deixando que a ação se ressentisse dos

defeitos do filme, embora também contribuam para isso os artistas, gente de teatro, o exagero

das caracterizações”.



A condenação ao parentesco com o teatro marcou parte da recepção crítica do filme ao longo das décadas, visto muitas vezes como uma forma de encenação teatral, caracterizada pela entrada e saída de cena dos atores.

Como a forma do filme nasceu em estreito diálogo com as mídias anteriores, a intermidialidade auxilia-nos a analisar as relações entre palco e tela, prescindindo do debate em torno do específico do cinema. Não procuramos localizar uma inovação na linguagem cinematográfica, mas compreender a continuidade de práticas de encenação e de formas conjuntas de cinema e teatro, desenvolvidas pelos artistas brasileiros na década de quarenta.

A adaptação para o cinema não significou apenas a incorporação da mesma história, mas trouxe consigo a transposição da forma teatral. O estilo de um cineasta dialoga não somente com a conversão de seu pensamento em imagens, mas também com o contexto de produção e com sua formação técnica e cultural. Contudo, nem sempre a análise fílmica preocupa-se em demonstrar a relação em cadeia entre a presença de uma mídia anterior e sua incidência na configuração cinematográfica. Nesse sentido, interessa-nos observar se a transposição do palco para a tela significou uma incorporação da forma narrativa teatral, ou se Gilda de Abreu integrou na montagem o específico do teatro. Dessa forma, procuramos compreender se a transposição teatral foi o fator determinante à montagem ou se a presença do teatro dialogou mais com o contexto de produção através do enredo do filme. Sem procurar ocultar suas origens teatrais, O Ébrio parece colocar de maneira intencional o teatro em primeiro plano como forma de manter aberto o diálogo com o público.
Bibliografia

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