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  Título
Montagem icônica na cinemática audiovisual
Autor
Irene de Araújo Machado
Resumo Expandido
Examina-se aqui o processo de composição estética da montagem em experiências de limites em que a articulação por contigüidade gera de seu interior procedimentos baseados em associações de similaridade e analogias. Questiona-se, assim, a lógica da composição e da ilusão da contigüidade (Pignatari, s/d) em nome da analógica da criação plástico-sensorial orientada pelo ícone (Plaza, 1980). Trata-se de uma demanda que emerge da compreensão dos processos criativos do movimento cinemático gerado pela iconicidade da luz, do som, de vozes que ganham corpo em formas animadas audiovisuais. Forma no sentido eisensteiniano de imagicidade [obraz, revelação] (Eisenstein, 1982, p. 39; 1980). Para isso, analisam-se as intervenções realizadas por Aleksándr Sokúrov em seu cinema cujo código genético deriva do cinematismo da composição (Machado, 2003).

O documentário de Sokúrov analisado se inicia com o relato de uma voz off, um quase-sussurro, de alguém que assiste (ou imagina?) a uma performance de uma peça tradicional de teatro nô ao ar livre, num dia nublado de inverno. Lentamente a câmera acompanha o ator que entra pela esquerda do palco. Com a bruma a envolver o cenário, o ator se confunde com o tronco de uma cerejeira; com o deslocamento do eixo da câmera, a árvore parece compor uma pintura supostamente pendurada numa parede de museu. A voz se indaga sobre o autor da obra, até que o enquadramento focaliza não apenas o quadro mas já um plano em que o pintor admira sua criação.

Eis como entramos em contato com os primeiros minutos do curta metragem de Sokúrov, Robert. A fortunate life (1996), um suposto documentário sobre a vida do pintor gravurista francês setecentista, Hubert Robert, cuja obra foi acolhida no museu Hermitage, em seu refúgio em São Petersburgo. Desde o início, o contraponto da montagem dos quadros com o discurso de uma voz entoada em tom memorialístico orienta-se pelas descontinuidades e fusões no interior das sequências. Simultaneamente ao que se desenrola na tela, se articulam associações e analogias no discurso interior de quem assiste – a quem a voz off apela sem constrangimento de lançar indagações. Se não é narrativa, sem dúvida a dramaturgia audiovisual aqui se mostra metanarrativa.

Assim como os motivos plásticos da pintura de Robert são as ruínas, a câmera e com a voz hesitante procura por ângulos insólitos de um espaço que se manifesta e não se revela mas se multiplica e cria ressonâncias de algo que, no percurso, se transforma. A voz cujo relato vincula memória a documentário, emerge da performance teatral que, por sua vez, deixa que um traço de sua composição rompa os limites da cena e ceda lugar às pinturas e ao próprio espaço museológico cinematicamente construido. Plasticamente, os galhos da cerejeira se transformam em troncos, colunas, mastros e os motivos pictóricos são qualificados pelo movimento cinemático audiovisual. Não se trata, portanto, de enquadrar os limites da experiência estética. O que Sokúrov nos oferece são conflitos a alimentar contrapontos de sua montagem que faz do estranhamento um princípio construtivo de criação estética e de invenção.

Derivar a montagem do movimento cinemático audiovisual torna-se a grande invenção da estética de Sokúrov, ainda que ele não seja o único cineasta a praticar tal procedimento. Todavia não há como negar que o processo construtivo de seu filme opera plasticamente também a dramaturgia sonora da vocalização da memória que não se contenta em narrar. O tom introspectivo que se confunde com datas, hesita em suas cogitações, ensaia argumentos e mergulha em especulações no fundo de sua memória, se aproxima muito mais de um discurso do imaginário, que V. Volochinov (1973) examinou como discurso quase-direto, de difícil elaboração na enunciação literária, mas um grande aliado da montagem audiovisual própria do cinema. Tal é o raciocínio que orienta o entendimento da montagem icônica do movimento cinemático-audiovisual.
Bibliografia

À MEIA NOITE com Glauber Rocha. Brasil, 1997. Direção: Ivan Cardoso.

CHKLÓVSKI, Viktor. A arte como procedimento. In: Teoria da literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1976.

EISENSTEIN, Sergei. Cinematisme: peinture et cinéma. Bruxelles: Complexe, 1980.

_____. Perspectives. Film Essays and Lecture. New Jersey: Princeton University Press, 1968.

KATHALIAN, Marcos. Concepções de montagem em Sokúrov: a síntese com duas vertentes do cinema russo. Contracampo. Niterói, n. 23, 2011.

MACHADO, Álvaro. Aleksándr Sokúrov. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

MACHADO, Irene. Especulações sobre o código genético do cinema – sem corte. Galáxia. Revista Transdisciplinar de Comunicação, Semiótica, Cultura. São Paulo, n. 5, 2003.

PIGNATARI, Décio. A ilusão da contigüidade. Através, n. 1. São Paulo: Duas Cidades, s/d.

PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1980.

ROBERT. A Fortunate Life. Moscou, 1996. Direção: Aleksándr Sokúrov.

VOLOSINOV, V.N. Quasi-Direct Discourse in