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  Título
Imagens do Desvario: narrativa visual de estados alterados
Autor
Taís de andrade e Silva Nardi
Resumo Expandido
Esta apresentação discute como a direção de fotografia pode contribuir para a representação de estados alterados de percepção, ou seja, como é possível expressar através da imagem que os personagens estão loucos, drogados ou em transe, condições de subjetividade exagerada dentro das narrativas. São, portanto, momentos privilegiados de liberdade estética, nos quais os narradores se deixam levar pelo ponto de vista dos personagens, mesmo dentro de filmes de linguagem clássica.

Para tanto se debruça sobre três filmes brasileiros produzidos no início dos anos 2000: Estorvo (2000) de Ruy Guerra, Filme de Amor (2003) de Júlio Bressane e A Concepção (2005) de José Eduardo Belmonte. Essas obras mantém o debate dentro de um contexto regional e temporal comum para que o panorama formado pelas ferramentas visuais das obras possa revelar como estratégias diferentes de representação podem apontar (ou não) para um mesmo imaginário em relação aos “estados alterados” e a “normalidade”. Extrapola-se então a questão de como as imagens podem ser expressivas e atingir emocional e psicologicamente o espectador, em busca de também examinar suas construções como práticas de discurso que revelam pontos de vista sobre o homem e a sociedade.

Essas análises levantam questões vinculadas principalmente à definição do ponto de vista da narrativa: Quem está contando essa história? Como essa narrador expressa seu ponto de vista através das imagens? O que isso permite dizer sobre seu modo de ver a sociedade?

A primeira pergunta é discutida através do conceito de “focalização”, trazido ao cinema por André Gaudreault e François Jost, que define o ponto de vista da narrativa pelas relações de saber entre narrador e personagens. A partir dele, podemos perceber nos filmes a construção da aproximação do narrador com o ponto de vista afetivo e epistêmico dos personagens através das imagens, apesar de cada um apresentar diferentes relações da câmera para com eles. É está identificação entre narrador e personagem que guia a direção de fotografia dos filmes para um afastamento da linguagem visual realista e uma aproximação da ideologia expressionista.

Considerando o expressionismo como imaginário marcado pela exaltação à subjetividade, e por isso seduzido pela loucura e pelo sonho ­ estados alternativos à realidade opressora ­ , pode-se responder à segunda pergunta proposta interpretando a narrativa visual das obras a partir de uma intenção de expressão não baseada na compreensão intelectual ou na observação, mas sim na sensação. Esse ideal guia direções de fotografia que se afastam do ideal de transparência do meio cinematográfico, fazendo uso de deformações, movimentos de câmera instáveis, variações de cor e textura, iluminação não-naturalista e enquadramentos que chamam atenção para si. São filmes que trabalham com o efeito, a performance e a deformação, que marcaram a estética expressionista até os anos 1930.

Ancoradas na subjetividade essas imagens permitem vislumbrar o juízo dos narradores de cada obra sobre seus protagonistas. Ao acompanhar o destino de cada um pelos fatos apresentados e, principalmente, pelo modo como são representados, é possível afirmar que as três obras apresentam protagonistas desajustados em conflito com a sociedade, com narradores que se colocam a favor dos personagens e que, dessa maneira, criticam a estrutura vigente da época em que as obras foram produzidas. Os personagens são loucos, drogados, até selvagens, mas não estão errados. Os narradores são simpáticos à tentativa de libertação que envolvem as alterações de percepção em busca da conexão com sensações interiores, dialogando assim com o expressionismo no campo da forma e da ideologia.
Bibliografia

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