Voltar para a lista
 
  Título
O tempo de espera em Os óculos do vovô: anotações de um historiador
Autor
Eduardo Victorio Morettin
Resumo Expandido
Os óculos do vovô (1913), de Francisco Santos, é o mais antigo remanescente da produção ficcional da história do cinema brasileiro. Dele sobreviveu menos de um terço de sua duração original de 15 minutos. Maria Rita Galvão (s/d), em texto ainda inédito, realiza um meticuloso estudo comparativo das cópias existentes na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e na Cinemateca Brasileira, esta oriunda da antiga Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme), ancorado no exame da documentação textual e iconográfica. Não à toa, como Maria Rita faz questão de frisar, seu estudo se intitula “Jogo de Armar”, e tem por subtítulo, “Anotações de catalogador”.

Como muitos dos cinegrafistas que se aventuravam pelo cinema, Francisco Santos era um imigrante de origem portuguesa, que chega ao Brasil no início do século XX. Circulando por diversos estados com sua companhia teatral até se estabelecer no sul nos anos 1910, abandona o teatro para dirigir em Pelotas “uma centena de jornais da tela e (...) três filmes de enredo” (GALVÃO, s/d). Sua atividade é interrompida em 1914, com a escassez de filme virgem em virtude da Primeira Guerra Mundial. Desta produção restaram os quatro minutos e dezesseis segundos de Os óculos, que não contêm todos os elementos presentes na sinopse disponível na sua ficha catalográfica da Cinemateca Brasileira: “O menino peralta pinta os óculos de seu avô enquanto este dorme. Ao acordar, o avô leva um susto, diante da cegueira imaginada, criando uma série de confusões dentro de casa”. Tratar-se-ia, portanto, de uma comédia. O condicional se deve ao fato de que não sobreviveram os planos da peraltice da criança e, muito menos, das confusões praticadas pelo vovô, o que dificulta a análise de sua inserção no gênero (SOUZA, 2012). Por essa razão, nossa atenção deve se voltará a outros aspectos.

O cinema produzido no final do século XIX e início do século XX era antes conhecido como pré-cinema ou cinema primitivo, dada a percepção de que existia uma lacuna a ser preenchida, uma ausência daquilo que se configurou mais à frente, nos anos 1910, como cinema narrativo clássico. No que diz respeito ao cinema brasileiro do mesmo período, as considerações de um historiador do porte de Paulo Emilio Salles Gomes, observa Maria Rita, iam no mesmo sentido. Para ele, filmes como Os óculos, são “decalques canhestros do que se fazia nas metrópoles”, de “pouca habilidade com que era manuseado o instrumental estrangeiro” e “tecnicamente muito inferiores ao similar importado” (GOMES, 1980).

Da comparação entre as versões existentes, a análise de Maria Rita se interessa por um plano localizado na metade do filme. Seu interesse deriva da constatação de que a sua função é a de garantir a continuidade, o “enquanto isso” típico da montagem paralela griffithiana, sinal de que o filme estava em sintonia com o que à época se fazia no cinema norte-americano.

Maria Rita observa que esses dados seriam “suficientes para revolucionar a ideia corrente sobre a construção da linguagem no cinema mudo brasileiro”, entendida então como uma “sucessão de quadros de ação completa, interligados por letreiros que deveriam explicar os acontecimentos e estabelecer a concatenação lógica entre eles” (GALVÃO, s/d)”.

Corroborando essa perspectiva, mas em caminho um pouco diferente, deter-me-ei em um elemento muito presente em Os óculos: o que Maria Rita chama de “o tempo de espera”, que se evidencia em cada plano com o registro de um antes e um depois da ação transcorrida, ou seja, da chegada e saída das personagens.

Se a historiadora indica os momentos em que há esse vazio e suspensão, ela não os explora. Nossa comunicação tem por objetivo, portanto, analisar essa dimensão estética, apontando em 1913 os significados dessa forma de articulação do tempo e de montagem, destacando suas especificidades no contexto da produção corrente tanto nacional quanto internacional.
Bibliografia

BERNARDET, J.-C. Historiografia clássica do cinema brasileiro. SP: Annablume, 1995.

GALVÃO, M. R. Jogo de armar. Anotações de catalogador. Mimeo. s/d.

GOMES, P. E. S. “Pequeno Cinema Antigo”; “Panorama do cinema brasileiro: 1896/1966”. In: Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. RJ: Paz e Terra, 1986.

MORETTIN, E. “Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso”. In: KORNIS, M. et al. (org.). História e Documentário. RJ: Ed. FGV, 2012.

PÓVOAS, G. “Confusões, entraves, desafios na história da Fábrica Guarany”. In: GUTFREIND, C. F.; GERBASE, C. (orgs.). Cinema gaúcho: diversidades e inovações. PA: Sulina, 2009.

SANTOS, Y. L.; CALDAS, P. H. Francisco Santos. Pioneiro no cinema do Brasil. Pelotas, RS: Ed. Semeador, 1995.

SOUZA, C. R. de. “Estratégias de sobrevivência”. In: PAIVA, S.; SCHVARZMAN, S. (orgs). Viagem ao cinema silencioso do Brasil. RJ: Beco do Azougue, 2011.

______. “Riso amargo”. Recine, v. 9, n. 9, p. 14 – 19, dez. 2012