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  Título
A viagem permanente de Herbert Duschenes, educador e cineasta
Autor
Paola Prestes Penney
Resumo Expandido
Esta proposta tem origem na pesquisa de doutorado que estou desenvolvendo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ela aborda o arquiteto e professor de história da arte Herbert Duschenes e o acervo de mais de duzentos filmes amadores em 8mm. e Super 8mm., sem som, por ele realizados entre 1943 e meados de 1990. Com o recrudescimento do nazismo na Europa, Duschenes, judeu alemão, se refugia em 1940 em São Paulo, onde se casa com a coreógrafa Maria Duschenes e começa a filmar. A coleção possui três grandes eixos temáticos: família, viagens e dança. Porém, os filmes de viagem que recobrem quatro continentes constituem dois terços da produção. Quanto ao conteúdo, não são meros registros ou travelogs: as imagens evocam a arquitetura dos lugares visitados, exposições, museus, obras de arte, folclore e, sempre em função dessas manifestações, a observação de contornos etnográficos da vida quotidiana de metrópoles ocidentais até vilarejos orientais. Ao retornar de suas jornadas, Duschenes monta os filmes e organiza concorridas palestras em sua casa, acompanhadas por projeções.

Essa iniciativa lhe vale um convite para ser professor de história da arte na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Alvares Penteado, no final dos anos sessenta. Das palestras resulta então uma metodologia de ensino específica e rigorosa que se afirma com o tempo (Duschenes eventualmente abandonaria a arquitetura para se dedicar exclusivamente ao ensino, por mais de trinta anos). Cada ano letivo corresponde a uma nova viagem (realizada no ano precedente) e, consequentemente, a um novo conjunto de filmes que, por sua vez, alicerça um novo curso. Ou, inversamente, podemos dizer que cada novo curso que Duschenes concebe engendra uma nova viagem e um novo conjunto de filmes. Nesse círculo virtuoso, planos de viagem, planos de filmagem e planos de aula fazem parte de um mesmo processo de pesquisa e trabalho que deságua na metodologia de ensino nem sempre compreendida e, consequentemente, bem vista pelos pares do professor-cineasta.

Os filmes não são apenas a ilustração ou o material de apoio de um discurso linear e didático, mas uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento de um olhar ao mesmo tempo crítico e sensível. Ao trazer o mundo para a sala de aula por meio do cinema, Duschenes articula diversos elementos que compõem o que podemos aqui chamar de cultura, lato sensu. As aproximações consonantes e dissonantes que ele faz por meio da montagem dos filmes possibilitam aos alunos uma montagem paralela, a de um pensamento expandido e não linear. Esses jovens vivem sob as restrições à informação que o governo militar da época impõe e, é importante lembrar, ainda estão a mais de duas décadas de ouvir falar em web ou internet. Da estreita relação com Maria desponta a produção de filmes de dança, também relacionados a uma atividade pedagógica, a de Maria como professora de um método inédito no Brasil, o sistema Laban. Dessa maneira, o acervo Duschenes permanece o eloquente testemunho da missão empreendida pelo casal de educadores e que encontrou nos filmes realizados por Herbert seu mais expressivo vetor para um modelo de formação democrático e contínuo.

Assim, esta proposta visa apresentar, além de um acervo de filmes ainda pouco conhecidos, uma metodologia que articulou cinema, ensino e aprendizado, e cujo êxito convida para a reflexão acerca dessa prática hoje. Ao nos pautarmos pelo conceito de Roger Odin de cinema amador como amateur, que em muito ultrapassa o objetivo de uma produção feita apenas para desfrute familiar e se realiza em obras feitas com competência técnica e amor com a finalidade de serem compartilhadas, podemos pensar no cinema como motor possível de uma metodologia do afeto que não aparta razão e sensibilidade, que aproxima o professor e o aluno, mas, sobretudo, o aluno e o mundo, indo de encontro às noções de Bertrand Russell de cultura universal e do professor como guardião da civilização.
Bibliografia

DUSCHENES, H. Autobiografia. Curitiba: manuscrito, 2003.

ODIN, R. (Org.). Le film de famille – usage privé, usage public. Paris: Méridiens Klincksieck, 1995. p. 27-41.

RUSSELL, B. As funções de um professor. In: POMBO, O. (Org.). Quatro textos excêntricos – Filosofia da educação. Lisboa: Relógio D´Água Editores, 2000. p. 71-85.





Artigo



ODIN, R. (Org.). “Le cinéma en amateur”. In : Communications - École des Hautes Études en Sciences Sociales (Sociologie, Anthropologie, Histoire), n. 68. Paris: Seuil, 1999. p. 47-84. Disponível em: . Acesso em: 14 jan. 2018.