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  Título
Entre Bronson e Memória Impura: A adaptação literária no cinema.
Autor
Roberto Gustavo Reiniger Neto
Resumo Expandido
Na constante convergência do audiovisual, sua teoria por vezes, em uma excessiva confluência, deixa de rever certos conceitos dentro das especificidades de seu discurso. A narrativa cinematográfica, por exemplo, ainda adapta a ficção literária, mas pouco tem investigado a prática, ou o processo de transposição desta escrita. Sob este aspecto, este artigo tem por objetivo rever essa confluência, considerando a adaptação da literatura no cinema contemporâneo a construção de um discurso que trabalha com distintas obras, enquanto matrizes colaborativas, que constroem recortes e referenciais que podem contribuir de forma assertiva com o desenvolvimento desses estudos. Para a amostragem dessa metodologia, apontam-se aqui as relações existentes entre o filme Bronson, de Nicolas Refn, e o livro Memória Impura, de Luiz Vadico.

Atualmente, a adaptação da literatura no cinema é investigada, mas de forma delimitada, em campos como o historiográfico, o estético-autoral e o epistemológico; nessa investigação surge um cenário aonde já há autores que apontam para a necessidade de uma renovação, ou ao menos uma reflexão sobre esses estudos. Para Hans Ulrich Gumbrecht, haveria um certo estanque científico na literatura que impediria a prática de uma investigação para além da superfície de seu discurso, e impossibilitaria assim, a abordagem de novas especificidades narrativas. Já Robert Stam, no cinema, considera a análise da adaptação literária um estudo aberto, que vê sobre essa transposição textual uma conjunção colaborativa e interdisciplinar entre distintas produções culturais. Questiona-se aqui se esta análise aberta não seria também uma prática da metafísica gumbrechtiana? O ir além dos elos entre o filme e o livro, buscando entre eles, relações que despertem interesse tanto na produção científica, quanto na escrita de um roteiro cinematográfico.

Consideremos, o livro Memória Impura: uma coletânea de treze contos, aonde mais do que cronologicamente contextualizar, a História Antiga é empregada como habitat de suas personagens, as quais neste local, confessam seus dramas e conflitos. São relatos interdisciplinares, com inúmeras citações à Mitologia, que retratam sofrimentos latentes e constantes, oriundos de desejos e culpas do passado, ou de um futuro póstumo, que acabam presentificados no tempo narrativo que os cercam. Relacionar a liberdade estética presente no discurso de Memória Impura, com recortes e referenciais fílmicos, aproxima-o assertivamente da teoria stamniana. Retomemos o filme Bronson, o qual conta a vida do presidiário Michael Peterson (Tom Hardy): um dos detentos mais caros de toda a história do poder judiciário britânico, ainda sem uma data prevista para o seu julgamento. Refn nunca fez um filme biográfico, mas sim, tomou como mote, a transformação de seu protagonista em Charles Bronson. Para Michael Peterson, este ator, era o seu alter ego.

Sob um olhar gumbrechtiano, Vadico e Refn trabalham com a produção de presença. Tanto Peterson, quanto o eu lírico, dos contos do livro aqui analisado, trabalham com a funcionalidade da memória. Presentificam o passado com um ponto de vista próprio, que pode ser promovido à autarquia de personagem. Bronson, em várias performances, atua em uma esfera atemporal paralela, não julgadora de sua moral, mas tão presente quanto o tempo diegético de sua personagem. Refn também não define a cronologia de sua trama. Entre idas e vindas temporais, seu filme opta por mostrar o conflito, mas não lhe propor uma solução, apenas mantém suas personagens estagnadas e inertes. Quando nos deparamos com denominadores comuns entre a literatura e o cinema, colhemos para esses, conteúdos interdisciplinares que podem contribuir com seus estudos. São leituras que vão além das superfícies de seus elementos, e podem também criar referenciais criativos para futuros projetos cinematográficos, assim como Bronson funcionou para a adaptação de Memória Impura em um roteiro de longa-metragem.
Bibliografia

Bronson. IMDB – Internet Movie Database. Disponível em: . Acesso em: 04 mai. 2018;

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente. O tempo e a cultura contemporânea. São Paulo: Ed. Unesp, 2015;

____________. Lendo para a Stimmung? - Sobre a ontologia da literatura hoje. Revista Índice, vol. 01/n.01, 2009. Disponível em: . Acesso em: 04 mai. 2018;

STAM, Robert. A literatura através do cinema: Realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008;

___________. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. Revista Ilha do Desterro, vol. 01, n.51, 2006. Disponível em: . Acesso em: 04 mai. 2018;

VADICO, Luiz; REINIGER, Roberto. Robert Stam – Cinema, Literatura e a trajetória de uma metodologia de pesquisa. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação – INTERCOM. Disponível em: . Acesso em: 04 mai. 2018;

______________. Memória Impura. São Paulo: Ed. Novo Século.